quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A Bela e a Adormecida – Neil Gaiman – Resenha

Por Eric Silva

Mais uma releitura dos clássicos contos de fadas, em uma edição luxuosa e ricamente ilustrada, A Bela e a Adormecida, livro do escritor britânico Neil Gaiman, busca recontar duas histórias mundialmente conhecidas através de um olhar mais moderno e atualizado e com uma proposta de enredo revolucionária para o gênero, mas que peca por sua narrativa mecânica e pouco envolvente.

Sinopse

No reino mais próximo, uma poderosa magia está envolvendo a todos em um sono eterno. Munida de armadura e espada e na companhia de três corajosos anões, a Rainha abandona os preparativos de seu casamento e parte em busca de descobrir a origem daquele mal que ameaçava também sobre seu reino.

Resenha

Conheci o trabalho do escritor britânico Neil Gaiman ainda em 2015, quando li Lugar Nenhum, um de seus livros de maior sucesso no Brasil e que, recentemente, foi republicado pela editora Intrínseca. Lembro que na época achei muito criativo o universo criado pelo autor para compor o cenário da história, na qual um simples e fracassado funcionário de escritório se vê, contra a sua vontade, envolvido em uma trama perigosa de perseguição em um mundo subterrâneo que jamais imaginaria que existisse. Uma combinação de fantasia, com gótico e pitadas de humor e terror.

Sem dúvidas, Lugar Nenhum é um bom livro e me fez ficar interessado na obra do autor mundialmente conhecido. É verdade que, de lá para cá, não tive oportunidade de ler outro livro do autor, sobretudo porque estive ocupado com outros livros e com a campanha do #AnoDaEspanha e agora do #AnoDoBrasil. Mas foi esse desejo de retornar a Gaiman, que fez com que A Bela e a Adormecida me chamasse a atenção quando a editora Rocco anunciou seu lançamento no Brasil.

A Bela e a Adormecida é um livro esteticamente muito bonito, com suas ilustrações detalhistas e luxuosas e com uma proposta revolucionária de releitura dos contos da Branca de Neve e da Bela Adormecida, mas que pecou pela narração um tanto fria e sem sabor. Vou explicar.

Neste livro, Branca de Neve – que na história não é chamada por esse nome, ficando subentendido – já é rainha e está prestes a se casar, apesar de parecer não estar muito feliz com a situação. Mas é nas vésperas de seu casamento que três anões procuram-na para avisá-la de uma maldição que está assolando o reino vizinho, colocando seus habitantes em um sono que durava décadas, e que, em breve, poderia recair também sob os domínios da rainha, levando seus súditos a terem destino igual.

Eis que, muito decidida do que tinha que fazer, a rainha adia seu casamento, toma medidas preventivas para que seu reino não fosse acometido pela maldição durante sua ausência e, tomando sua cota de malha e sua espada, parte com os anões para o reino vizinho em busca da origem daquele mal que ameaça seu povo.

É com a atitude decidida da rainha que logo de início percebemos que A Bela e a Adormecida é um conto de fadas diferente, sem príncipes e feito de mulheres fortes. A rainha, principalmente, é uma personagem forte, altiva e corajosa. O espelho de uma mulher de ação que não está disposta a esperar por um pretenso príncipe que venha ao seu socorro e que mude sua vida. Ela o faz por si mesma.

Além disso, o livro traz à tona, em suas entrelinhas, uma discussão de gênero importantíssima. Há nele uma busca clara de quebrar com uma lógica tradicionalista em que contos de fadas devem ser sempre histórias de amor e cujos personagens centrais, invariavelmente, são casais de príncipes e princesas, onde, os primeiros são os heróis da trama e elas, as donzelas em perigo, incapazes de se defender. Quebra também a convenção de que o desejo da princesa é sempre encontrar um príncipe perfeito, casar-se e “viver felizes para sempre”.


A nossa personagem, é uma mulher moderna e com outras prioridades que não são o matrimônio ou a maternidade. Nestes pontos o livro é notável e bastante moderno, alinhado a nossa época, além de trazer um desfecho completamente novo em relação ao conto original, mas isso não foi o suficiente para mim.

Fiquei sabendo, inclusive, que Gaiman vem sendo muito criticado por algumas pessoas mais tradicionalistas e conservadoras, que viram com maus olhos [SPOILER em itálico] um beijo que acontece entre Branca de Neve e a Bela Adormecida já próximo do desfecho da história. Porém, minha crítica não é nesse sentido.

Riqueza de detalhes nas ilustrações de Chris Riddell desenhadas em preto, branco, e as vezes em dourado escurecido.

O livro é muito bem ilustrado, um luxo, o que deixou a edição bonita, chamativa, um convite tentador para que peguemos o livro e comecemos a ler. Tenho certeza que por parte das ilustrações o livro deve ter agradado amplamente os seus leitores. Mas para mim um bom livro é feito pela aliança equilibrada de um bom enredo[1] (a história em si), personagens bem construídos e uma boa narrativa[2] (a forma como a história é contada, o modo de narrar). Se narrativa e enredo se harmonizam e são de boa qualidade, e se os personagens apresentam uma boa construção, tem-se, no meu ponto de vista, um bom livro.

Em A Bela e a Adormecida faltou o quesito narrativa que ficou um tanto crua, sem emoção na apresentação dos fatos e um pouco sem beleza estética. Condene-me quem quiser, mas isso é essencial, principalmente em um conto de fadas, onde o envolvimento e a atmosfera mágica é feita através da palavra.

Além disso, mesmo o enredo me frustrou um pouquinho. Li o livro de Gaiman todo em pouco mais de duas horas e nenhum momento me senti envolvido por ele. É certo que, pela extensão e pelo gênero, a ideia é de que todo o livro seja nada mais do que um conto, sem muitos aprofundamentos, mas o livro frustrou todas as minhas expectativas. Esperava por uma história ainda mais criativa e com muito mais desdobramentos, como em Lugar Nenhum. Esperava uma história que fosse bem mais longe, não se limitando a apenas recontar uma história antiga com alguns elementos novos e de um modo mais moderno e antenado com os novos contextos.

Vivemos uma era em que a mulher já não é mais o sexo frágil e vem conquistando com muita luta o seu merecido espaço e, por isso, parabenizo o autor pela iniciativa de quebrar tabus, mas esperava uma história mais elaborada e com mais sentimento, com uma narrativa mais envolvente, instigante e que desse mais brilho e emoção a uma ideia que já era boa. Infelizmente não foi assim.

A edição lida é da Editora Rocco, do ano de 2015 e possui 72 páginas. Ilustrações de Chris Riddell.

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books e um vídeo promocional onde o autor e ilustrador falam sobre a obra.

Vídeo



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[1]Sucessão de acontecimentos que constituem a ação, em uma produção literária (história, novela, conto etc.); entrecho, trama. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
[2] Ato de narrar. = NARRAÇÃO.  (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

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