segunda-feira, 22 de maio de 2017

Retratos Ingleses – Charles Dickens – Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

O que é um retrato? Uma imagem estática que imprime um momento que em seguida já pode ser considerado passado? Ou vai além, através da narrativa e descrição de uma realidade, de uma época? Retratos de uma era, da vida na distante Inglaterra Vitoriana, Retratos Ingleses é uma pequena coleção de contos do romancista inglês Charles Dickens, nos quais o escritor imprimiu um pouco do cotidiano e do comportamento de seus contemporâneos, falando desde situações banais do cotidiano, até dramas familiares e denúncia social.

Resenha

Há muito tempo que venho tentando terminar a leitura deste livro e, enfim, fazer sua resenha, mas, a despeito de seu tamanho muito reduzido, nunca tinha chegado a ler até o fim todos os contos que compõe esta coletânea. Sempre deixava o projeto, retomava, abandonava de novo. Enfim, esse é o momento.

Retratos Ingleses é uma pequena coletânea de contos do mais famoso romancista da Inglaterra Vitoriana, Charles Dickens. A edição que eu li é bem antiga, datando de duas décadas atrás, e hoje só pode ser encontrada em livrarias especializadas em livros usados. Nela foram reunidos seis contos retirados de outra edição ainda mais antiga da Editora Ediouro, Os Carrilhões e Outros Contos, publicada em 1988.

Para o pequeno livro de bolso foram selecionados contos que se ligam apenas por retratar pequenos fatos do cotidiano susceptíveis a qualquer inglês da época, a exemplo das ambições de Miss Amélia Martin, do conto A Modista Equivocada. Neste conto é contada a história de uma simples chapeleira-modista, que tinha como principal clientela as serviçais das cercanias de Euston Square, mas que, depois de uma festa de casamento, passa a aspirar por uma carreira de cantora.

Edição original de onde foram extraídos
os seis contos de Retratos Ingleses.
Após A Modista Equivocada outros contos de temas bem corriqueiros se seguem, como em Mr. Minns e Seu Primo, onde é retratada uma típica relação entre parentes inconvenientes – e interesseiros – e aqueles que, por cortesia e educação, o suportam; e em Sentimento, no qual uma família, buscando preservar o seu bom nome, evitando um casamento indesejado, transferem para uma escola interna a filha moça apaixonada por um rapaz de classe social inferior.

Esses três primeiros contos, sem dúvida, justificam o título do livro ao apresentar situações corriqueiras, até pouco relevantes, mas que, não só em sua narrativa e descrição de personagens e ambientes, mas em seu todo retratam alguns dos mais típicos hábitos e estilos de vida da Inglaterra Vitoriana. Ademais, é curioso notar que os pequenos acontecimentos ali narrados confluem, deveras, para surtir impacto nas vidas destes mesmos personagens.

Todavia, se os três primeiros contos pintam breves retratos do cotidiano de pessoas da pequena e grande burguesia, os três contos que encerram a obra tomam um corpus diferenciado com situações atípicas que vieram perturbar ou transformar os estilos de vida de seus personagens. São contos que de certo modo também traçam retratos, um deles ainda numa esfera do cotidiano da pequena burguesia, como é o caso de A História do Viajante, mas que se diferenciam dos primeiros por um tom mais fantástico e sobrenatural como no conto supracitado, ou mais macabro como em O Véu Negro. Neste último temos a história de um médico que recebe, em uma noite chuvosa, a visita de uma misteriosa mulher de véu negro que, sem revelar seu rosto encoberto, requisita seus serviços para um paciente que já julgava perdido, mas que ela envolve em uma aura de mistério que nos faz duvidar da sanidade mental da própria mulher.

Os dois contos supramencionado são interessantes e contrastam com os primeiros, não tanto por seus temas – ainda que em O Véu Negro tenhamos uma leve conotação de crítica social em seu desfecho –, mas, principalmente, pela atmosfera criada. Por isso, para mim, esta é a parte mais interessante da obra.

Não obstante, neste livro de pequenas histórias, ainda temos espaço para uma pequena amostra da conhecida crítica político-social do autor que se destacou por ter contribuído enormemente para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa[1].

No alegórico enredo de A História de Ninguém, Dickens parece tecer uma crítica profunda e entremeada de simbolismos e poética. A meu ver, trata-se de uma denúncia às condições de penúria e esquecimento impostas aos trabalhadores por sua elite política que, em vez de atender aos interesses e reais necessidades de seu povo – e saúde e educação são bastante enfatizados –, preocupa-se com as infrutíferas e acaloradas discussões e retóricas parlamentares, que de nada servem para aplacar o sofrimento do povo quando estas não resultam em decisão alguma.

O autor
Dickens faz sua crítica de forma bastante figurada, ainda que inteligível, através da descrição de um personagem incógnito, em um lugar recôndito, mas que entrega a seus vizinhos barulhentos, a família Bigwig, as decisões acerca de questões que ele mesmo não podia resolver em decorrência do fatigante trabalho que sustentava a sua família.

Eram questões de importante natureza a exemplo da educação de seus filhos, que deveriam ser decididas pela peculiar família, de costumes estranhos, que, a despeito de suas longuíssimas discussões, jamais chegavam a uma decisão concreta que levasse a uma ação real. Enquanto isso, a família do pobre trabalhador, totalmente ao sabor daquelas decisões, prosseguia em um rápido processo de decadência. Diante desse poder de decisão que os Bigwigs exerciam sobre a vida do trabalhador sem nome, não é de surpreender que nesta alegoria Dickens tenha escolhido para a família o nome de Bigwig, que no inglês faz referência a uma pessoa importante, um figurão, “mandachuva”, ou, na minha interpretação, a classe dirigente na Inglaterra de sua época.

De toda forma, nestes contos encontramos diferentes vertentes exploradas pelo escritor que ficou mundialmente conhecido por ter escrito David Copperfield e Oliver Twist. Encontramos desde temas mais despreocupados e corriqueiros até histórias que parecem se preocupar com o contexto social de sua época.

Retratos Ingleses não é um livro do qual se tenha muita coisa para falar em decorrência de seu tamanho, ainda mais, este é meu primeiro contato com a obra do autor. Mesmo que já tenha assistido ao musical de Oliver Twist, isso não valeria pela obra escrita. Por isso esta minha resenha, atipicamente, está sendo breve.

A edição lida é da Editora Ediouro, do ano de 1996 e possui 112 páginas.





[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Dickens

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