quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Jardim dos Esquecidos – Virgínia C. Andrews - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.


“Não é o amor que faz o mundo funcionar; é o dinheiro.”
(O Jardim dos Esquecidos – V. C. Andrews)

Chocante e envolvente, O Jardim dos Esquecidos, de Virgínia C. Andrews é um livro antigo que conheci há muitos anos, mas que só pude ler agora em 2017 e já está entre as melhores leituras deste ano. Nele conhecemos a história dramática de quatro irmãos que passam a viver escondidos, trancados no sótão da mansão dos avós maternos a espera de que o avô morra e a mãe herde uma fortuna que mudaria a vida dos cinco. Cruel e muito bem escrito, o primeiro livro da saga dos Foxworth abre alas para um drama psicológico que fez muito sucesso na década de 1980 e que já foi duas vezes adaptado para o cinema.

A resenha está dividida em dois grandes tópicos que descrevem os personagens principais, o enredo e apresentam minhas impressões da obra.

Resenha

Já faz mais de quatro anos que vi pela primeira vez este livro e lembro que, naquela época, fiquei muito interessado em lê-lo. Pesquisei sinopse, resenha, os livros da continuação da série, mas, devido a universidade e ao trabalho, que juntos me tomavam três turnos do dia, eu quase não tinha tempo de ler. O pouco tempo que dispunha mal dava para a leitura das matérias obrigatórias da faculdade. Por isso, esse foi um período quase sem literatura para mim e ler O Jardim dos Esquecidos tornou-se um projeto para um futuro que demorou a chegar.

Só ano passado decidi que mudaria esta situação, nas férias de janeiro, mas mesmo nesse período tinha matérias do curso de especialização para estudar. Acabei lendo só agora em fevereiro e não me arrependi, ou melhor, lamento não ter podido fazer antes.

Em uma de suas séries mais famosas, a estadunidense Virgínia C. Andrews conta a história dramática dos irmãos Chris, Cathy, e dos gêmeos Carrie e Cory, com início nos eventos descritos em O Jardim dos Esquecidos e prosseguimento nos outro quatro livros da saga: Pétalas ao Vento, Espinhos do Mal, Sementes do Passado e O Jardim das Sombras. Hoje falarei apenas do primeiro e espero o quanto antes prosseguir com a leitura dos demais.

O enredo: crueldade, ambição e fanatismo

Os irmãos Dollanganger em adaptação para o cinema.
Da esquerda para direita: Chris, Carrie, Cory e Cathy.
A família Dollanganger era muito feliz até a morte repentina do pai em um acidente de carro. Mergulhada em dívidas que não podia pagar e preste a ser despejada de sua casa com os quatro filhos, a viúva, Corrine, decide pedir auxílio aos pais milionários dos quais esteve por muito tempo afastada após ter sido deserdada pelo pai. Em cartas escritas para a mãe, Corrine explica sua situação desesperadora e pede a ela que a ajude com o pai que nunca perdoara a filha por seu casamento incestuoso com o meio-tio. Após muitas cartas sem respostas, a avó das crianças cede, e trama uma maneira da filha reconquistar a confiança e o amor do pai enfermo.

Explicando aos filhos os sérios problemas financeiros deixados pelo marido, Corrine convence os quatro a se mudarem para Foxworth Hall, a mansão de seus pais, explicando que bastaria ela reconquistar o carinho do pai para que eles passassem a viver uma vida de luxo. Deslumbradas as crianças chegam a mansão com sonhos de riqueza, mas se deparam com uma realidade bem diferente quando são informados que deveriam ficar trancados em um quarto do sótão para que ninguém soubesse de suas existências até que a mãe reconquistasse o pai ou este acabasse por morrer. Daquele dia em diante, os quatro cresceriam afastados do mundo exterior e seriam submetidos a tirania e violência da avó fanática que os desprezava e via nos netos o fruto diabólico da relação incestuosa da filha.

O Jardim dos Esquecidos é uma história que prende o leitor pela imprevisibilidade da história, pelos personagens complexos e envoltos por segredos e dissimulações, mas, principalmente, pela situação tão atípica, desumana e irracional que dá corpo a história.

É difícil imaginar o que aconteceria a quatro crianças que fossem obrigadas a ficarem presas dia e noite e por anos em um quarto de sótão, apenas para que ficassem escondidas do restante do mundo. Incógnitas e invisíveis até que um pretenso avô morresse e lhes deixassem de herança uma riqueza incalculável. É absurdo só de imaginar, mas Virgínia o faz de forma brilhante, aliando, de maneira bem dosada, crueldade, amor e ambição sem abusar muito dos clichês ou transformar estes três elementos em lugar comum na história.

Narrado pela perspectiva da inteligente e emotiva Cathy, anos após os dias vividos no sótão, a narrativa de O Jardim dos Esquecidos não é apressada e se desenvolve quase que totalmente no que acontecia no quarto em que as crianças eram mantidas presas. Essa relativa lentidão – que a gente nem percebe direito pela forma como imergimos nas dúvidas e apreensões da narradora – permite com que a história siga um desenvolvimento bastante natural enquanto que, de forma bem sutil, a autora vai modificando seus personagens, moldando-os e evoluindo-os ao longo do tempo da narrativa.

Por ser a autora tão detalhista nos pequenos momentos, e por ser tão sutis e gradativas as modificações sofridas pelas crianças, este livro me fez sentir uma sensação estranha, que outrora nenhum outro havia me inspirado, de que até certo ponto nada daquilo era ficção, que havia sido real. Se isso já não bastasse, em cada descrição de seus sentimentos, das reações percebidas ou das palavras ditas ou pensadas, Cathy é fiel aos detalhes não apenas como se rememorasse os fatos, mas como se tornasse a vivê-los.

Os personagens e os aspectos psicológicos da trama

Muito bem construídos e de uma vivacidade que os tornam verossímeis[1], os personagens de Virgínia são de personalidades muito bem demarcadas, e se em alguns momentos parecem momentaneamente apáticos é porque as circunstâncias da trama os levaram a sê-los.

Cathy é inteligente e amorosa, mas é também a mais decidida a enfrentar os adultos e desconfiar deles. É também a mais atingida pelo terrível jogo psicológico da avó e a que mais se preocupa com o bem estar dos irmãos. Chris, por sua vez, é inteligente, sensato e muito otimista o que faz com que o personagem algumas vezes seja ingênuo e confiante demais, porém é também capaz de sacrifícios extremados e de correr perigo pelo bem dos irmãos e para a sobrevivência de todos.

Os gêmeos apresentam entre si uma sintonia e companheirismo bem grande, que não é tão bem desenvolvida na trama como aquela entre os dois mais velhos, mas que é sempre explicitada pela narradora. O menino, Cory, se destaca pelo seu talento inato pela música e pelo carinho e dedicação à irmã gêmea. Por sua vez, Carrie é a mais tempestuosa e imperativa das quatro crianças, além de ser exigente e birrenta e cujas ações quase sempre dificultava a vida no sótão.

A autora
Da sua parte, a avó é, ao longo da história, como uma aparição tenebrosa e ameaçadora, como uma fera sempre a espeita e a espera de que uma das crianças fizesse algo de errado. Sua presença “física” não se faz tão frequente na narrativa e vai se reduzindo gradativamente para se destacar apenas nos momentos mais cruciais da história, principalmente porque suas idas ao quarto dos netos indesejados eram rápidas e a mesma, em um determinado ponto da história, se recusava a dirigir a palavra a eles. No entanto, a todo momento a eminência de sua chegada – sempre sorrateira – é o que deixa mais tensa as crianças. Sádica e indiferente as tentativas de aproximação dos netos, era uma mulher que, através de seu fanatismo religioso arraigado e da brutalidade de suas ações, sabia manipular psicologicamente as crianças se comportando sempre como uma pessoa de atitudes difíceis de prever ou compreender.

Contudo, o personagem mais dúbio[2] é a mãe, Corrine. Imprevisível, é sempre difícil saber o que ela de fato pretende ou quer. Amor e dedicação nesse personagem se mistura a negligencia. Todavia, a peculiar posição em que ela se encontra e que a força a esconder os filhos faz com que seja difícil formular uma opinião concreta sobre ela.

Com personagens de personalidades bem distintas e tão bem demarcadas, mas submetidos a uma situação hostil, esse é um romance onde a análise e a transformação psicológica dos personagens tem presença forte.

O jardim dos esquecidos trata de como tudo o que é extremo faz mal e traz frutos ruins. A fé levada ao extremo faz com que a avó trate de forma cruel os próprios netos. O apego extremado ao dinheiro e à vida despreocupada e fácil que ele proporciona leva Corrine a expor os filhos a uma situação também extrema e sobre-humana de reclusão. [SPOILER em itálico] E essa mesma atitude leva à mudança na saúde física e mental das crianças, levam-nas a mudar e inverter seus papéis, a se sentirem sexualmente atraídas umas pelas outras, a absorverem percepções de mundo que não entrariam em contato ou desenvolveriam em outro contexto e mexe de forma irreparável no psicológico delas. Experiências traumáticas que resultam em problemas psicológicos profundos.

Em conclusão, digo que é um livro surpreendente e envolvente até o final. Chocante pela crueldade a que as crianças são submetidas, mas que te faz seguir até o desfecho para saber o que acontece a cada personagem. Contudo, o final é semiaberto, por fechar apenas algumas das principais questões e revelar só alguns dos segredos da família de Foxworth Hall. Por fim, ele deixa o destino final das crianças para o volume seguinte, o que te faz ansiar ter a mão o segundo livro.

A edição lida é da Editora Francisco Alves, do ano de 1982 e possui 285 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia da edição do livro publicado em 2014 pela editora Figurati e que encontra-se disponível no Google Books.

Prévia do Google Books



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[1] Que parece verdadeiro, real (Houaiss, 2001).
[2] Sujeito a diferentes interpretações; ambíguo (Houaiss, 2001).

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