domingo, 24 de dezembro de 2017

[Enquete] Ajude-nos a escolher o país que será homenageado na terceira edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo.


Olá pessoal,

Como nossos seguidores já sabem, aqui no Conhecer Tudo 2017 foi proclamado o #AnoDoBrasil, país que foi escolhido para ser o homenageado da segunda edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo. 

A ideia desta campanha surgiu em 2016, depois da leitura de A Sombra do Vento, livro de Carlos Ruiz Zafón. Foi daí que surgiu com a Campanha do #AnoDaEspanha, na qual buscamos conhecer um pouco da literatura desse país lendo autores como Zafón, Garcia Lorca, Arturo Pérez-Reverte e Rosa Montero, uma experiência interessante que nos fez conhecer um pouco mais deste pais e de seu povo através da literatura.

No final daquele ano, em uma enquete parecida com essa, o Brasil foi escolhido como o ano a ser homenageado em 2017. A campanha ainda não acabou e está sendo uma experiência interessante. Contudo, a campanha se encerrará agora no final de dezembro e, em 2018, outro país será homenageado. Por isso, pedimos sua ajuda na escolha de qual será o próximo país, a nossa próxima viagem pela literatura. 

Para a votação escolhemos cinco países diferentes:
1. Representando o continente africano escolhemos Moçambique.
2. Representando a Europa, a França.
3. Como representante americano, Cuba.
4. Para representar a Oceania a Austrália.
5. E por fim, representando o continente asiático, o Japão

A enquete de votação foi aberta no Google +, ficará fixa no nosso perfil e compartilharemos várias vezes nas comunidades em que somos membros para que o máximo de pessoas possam votar. Venha e participe e ajude-nos a traçar os nosso próximo itinerário pela literatura de um novo país. 

A votação será até 31 de Dezembro e você pode achar a enquete com o link ao lado: http://bit.ly/2y3RMPx

Obrigado pela participação!


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

[News] Saiba quem foram os livros vencedores do Goodreads Choice Awards 2017

Por Eric Silva

Todos os anos o site do Goodreads realiza o prêmio Goodreads Choice Awards, uma premiação, no qual os usuários do site podem votar nos melhores livros do ano em 20 categorias diferentes.  A primeira edição do prêmio foi realizado ainda em 2009, e de lá pra cá mais de uma centena de livros foram premiados, entre eles best-sellers como Divergente Veronica Roth (2011, Best Book), 1Q84 de Haruki Murakami (2012, Best Fiction) e Harry Potter e a Criança Amaldiçoada de J. K. Rowling (2016, Best Fantasy).

Agora em dezembro foi divulgado o resultado dos vencedores de 2017 nas 20 categorias definidas pelo site. Conheça os vencedores, alguns deles já com tradução no Brasil.

[Ficção] Little Fires Everywhere

Celeste Ng

Sinopse em inglês: https://goo.gl/jhGfwx

[Mistério e Thriller] Em Águas Sombrias

Paula Hawkins

Sinopse: Nos dias que antecederam sua morte, Nel ligou para a irmã, Jules, que não atendeu o telefone e simplesmente ignorou seu apelo por ajuda. Agora Nel está morta. Dizem que ela se suicidou. E Jules foi obrigada a voltar ao único lugar do qual achou que havia escapado para sempre. Mas ela está com medo. De seu passado há muito enterrado e por saber que Nel jamais teria se jogado para a morte. E, acima de tudo, ela está com medo do rio, e do trecho que todos chamam de Poço dos Afogamentos...

[Ficção Histórica] Before We Were Yours

Lisa Wingate

Sinopse em inglês: https://goo.gl/tSL9Qy

[Fantasia] Animais Fantásticos e Onde Habitam - O Roteiro Original

J. K. Rowling

Sinopse: Quando o magizoólogo Newt Scamander chega em Nova York, sua intenção é fazer apenas uma breve parada. No entanto, quando sua maleta mágica é trocada e parte de seus animais fantásticos escapa, isso representa um problema para todos... Inspirado no livro didático de Hogwarts escrito por Newt Scamander, ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM: O ROTEIRO ORIGINAL marca a estreia de J.K. Rowling, autora dos queridos best-sellers internacionais HARRY POTTER, como roteirista. Uma façanha da imaginação, apresentando um elenco repleto de personagens marcantes e criaturas mágicas, essa é uma narrativa épica e repleta de ação em sua melhor forma. Para fãs ou iniciantes no mundo de Harry Potter, essa é uma adição perfeita à estante de qualquer leitor ou amante do Cinema. O filme ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM estreou nos cinemas em novembro de 2016

[Romance] Without Merit

Colleen Hoover

Sinopse em inglês: https://goo.gl/AVwNdU

[Ficção Científica] Artemis

Andy Weir

Sinopse em inglês: https://goo.gl/tvnmzE

[Terror] Belas Adormecidas

Stephen King e Owen King

Sinopse: Pelo mundo todo, algo de estranho começa a acontecer quando as mulheres adormecem: elas são imediatamente envoltas em casulos. Se despertadas, se o casulo é rasgado e os corpos expostos, as mulheres se tornam bestiais, reagindo com fúria cega antes de voltar a dormir. Em poucos dias, quase cem por cento da população mundial feminina pegou no sono. Sozinhos e desesperados, os homens se dividem entre os que fariam de tudo para proteger as mulheres adormecidas e aqueles que querem aproveitar a crise para instaurar o caos. Grupos de homens formam as “Brigadas do Maçarico”,incendeiam em massa casulos, e em diversas partes do mundo guerras parecem prestes a eclodir. Mas na pequena cidade de Dooling as autoridades locais precisam lidar com o único caso de imunidade à doença do sono: Evie Black, uma mulher misteriosa com poderes inexplicáveis.

[Humor] Falando o Mais Rápido Que Posso

Lauren Graham

Sinopse: Lauren Graham, a eterna Lorelai Gilmore conta, em primeira mão, como foi voltar a interpretar uma das personagens mais queridas da TV e revela algumas experiências que teve ao longo de sua carreira que farão você morrer de rir. A estrela Lauren Graham dá um presente aos fãs. Em Falando o mais rápido que posso, a intérprete da eloquente e amada Lorelai Gilmore faz uma retrospectiva da sua vida e compartilha histórias engraçadíssimas sobre amadurecimento, o início de sua carreira de atriz e, anos depois, como é sentar em seu trailer no set de Parenthood e se perguntar “Será que eu, hmmm, cheguei lá?”. Ela também fala abertamente sobre os desafios e as cobranças de ser uma mulher solteira em Hollywood e conta histórias divertidíssimas, como, por exemplo, a vez em que pediram a ela que fizesse um teste para um papel com a própria bunda. Finalmente, Laura encara uma épica maratona de Gilmore Girls e relembra como foi gravar cada ano da série original e o que significou para ela voltar a interpretar, nove anos depois, uma de suas personagens preferidas. Além de trazer fotos e trechos do diário que Lauren manteve durante as gravações do reboot Gilmore Girls: um ano para recordar, este livro é como uma noite agradável em casa batendo papo com sua melhor amiga, rindo, contando muitas histórias e — é claro — falando o mais rápido que você puder.

[Não-ficção] How to Be a Bawse: A Guide to Conquering Life

Lilly Singh

Sinopse em inglês: https://goo.gl/izKnxG

[Memória e Autobiografia] What Happened

Hillary Rodham Clinton

Sinopse em inglês: https://goo.gl/B8r3aW

[História e Biografia] The Radium Girls: The Dark Story of America's Shining Women

Kate Moore

Sinopse em inglês: https://goo.gl/B4qbgU

[Ciência e Tecnologia] Astrofísica Para Apressados

Neil deGrasse Tyson

Sinopse: Da autoria do mais famoso dos astrofísicos actuais, este livro contém o essencial sobre o Universo. Qual é a natureza do espaço e do tempo? Como é que nos encaixamos no Universo? E como é que o Universo se encaixa em nós? Nestas questões não há melhor guia do que Tyson.
A verdade é que, nos dias que correm, poucos têm tempo para contemplar o Cosmos, mas neste livro Tyson trá-lo até ao leitor de uma forma breve e clara, com uma inteligência cintilante, em curtos capítulos que se podem ler a qualquer hora e em qualquer lugar, ao longo do seu dia agitado.
Enquanto espera pelo café, pelo autocarro, pelo comboio ou pelo avião, Astrofísica para Gente com Pressa revelar-lhe-á tudo o que precisa para compreender os próximos títulos da imprensa sobre o Cosmos: do Big Bang aos buracos negros, dos quarks à teoria quântica, e da procura de exoplanetas à busca de vida no Universo.

[Culinária e Livros de Receitas] The Pioneer Woman Cooks: Come and Get It! Simple, Scrumptious Recipes for Crazy Busy Lives

Ree Drummond

Sinopse em inglês: https://goo.gl/k55Knw

[Graphic Novels e Comics] Uma Bolota Molenga e Feliz

Neil deGrasse Tyson

Sinopse: As incríveis tirinhas de Sarah Andersen são para nós, que não economizamos dinheiro na livraria, vivemos à base de café, deixamos tudo para a última hora, somos especialistas em roubar o blusão alheio, não sabemos nos comportar em situações sociais e insistimos em Pensar Demais. Esta segunda coletânea continua exatamente onde a primeira parou: debaixo de uma pilha de cobertas, evitando as responsabilidades do mundo real. Este volume traz tiras que acompanham os altos e baixos da montanha-russa implacável que é o começo da vida adulta, além de ensaios ilustrados sobre experiências pessoais da autora ligadas a ansiedade, carreira, relacionamentos e amor por gatinhos. Tudo isso com o mesmo tom sincero, leve e divertido que já conquistou mais de 2 milhões de fãs no Facebook.

[Poesia] The Sun and Her Flowers

Rupi Kaur

Sinopse em inglês: https://goo.gl/GzDpWE

[Autor Estreante e Ficção Para Jovens Adultos] O ódio que você semeia

Angie Thomas

Livro ganhador em duas categorias.

Sinopse: Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos.
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial.
Não faça movimentos bruscos.
Deixe sempre as mãos à mostra.
Só fale quando te perguntarem algo.
Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto.
Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início.
Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.
Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

[Fantasia Para Jovens Adultos] A Court of Wings and Ruin

Sarah J. Maas

Sinopse em inglês: https://goo.gl/pSBmrw


[Livros de Imagens] Somos Todos Extraordinários

R. J. Palacio

Sinopse: Extraordinário é um romance apaixonante e inspirador, que já tocou a vida de quase meio milhão de leitores só no Brasil. Publicada pela primeira vez em 2013, a história que acompanha o carismático Auggie Pullman, um menino de dez anos com uma grave deformidade facial que começa a frequentar a escola pela primeira vez, ganha agora uma edição dedicada às crianças, cuidadosamente pensada e elaborada com a intenção de levar a elas a forte mensagem de inclusão e gentileza que a autora R J Palácio imprimiu à sua obra.


Resgatando elementos da história original e inserindo os personagens em um mundo ilustrado que representa a imaginação do menino, Somos todos extraordinários vai deliciar todos os que já se emocionaram e os que ainda vão se emocionar com essa incrível história de superação, amizade e, acima de tudo, amor.


[Infanto-juvenis] O Navio dos Mortos

Rick Riordan

Sinopse: Nos dois primeiros livros da série, Magnus Chase, o herói boa-pinta que é a cara do astro de rock Kurt Cobain, ex-morador de rua e atual guerreiro imortal de Odin, precisou sair em algumas jornadas árduas e desafiar monstros, gigantes e deuses nórdicos para impedir que os nove mundos fossem destruídos no Ragnarök, o fim do mundo viking. Em O navio dos mortos, Loki está livre da sua prisão e preparando Naglfar, o navio dos mortos, para invadir Asgard e lutar ao lado de um exército de gigantes e zumbis na batalha final contra os deuses. 

Desta vez, Magnus, Sam, Alex, Blitzen, Hearthstone e seus amigos do Hotel Valhala vão precisar cruzar os oceanos de Midgard, Jötunheim e Niflheim em uma corrida desesperada para alcançar Naglfar antes de o navio zarpar no solstício de verão, enfrentando no caminho deuses do mar raivosos e hipsters, gigantes irritados e dragões malignos cuspidores de fogo. Para derrotar Loki, o grupo precisa recuperar o hidromel de Kvásir, uma bebida mágica que dá a quem bebe o dom da poesia, e vencer o deus em uma competição de insultos. Mas o maior desafio de Magnus será enfrentar as próprias inseguranças: será que ele vai conseguir derrotar o deus da trapaça em seu próprio jogo?

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

7ª Arte: Que Horas Ela Volta? – Resenha

Um filme que daria um bom livro

Por Eric Silva


Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.




Filme brasileiro escrito e dirigido pela paulista Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta? é uma obra de enredo simples, mas que faz emergir um retrato social e cotidiano muito fiel do trabalho doméstico no Brasil e, paralelamente, da migração nordestina para a capital paulista. Um cotidiano que por vezes é marcado por humilhações e desrespeito aos direitos trabalhistas e que já foi, em parte, a minha realidade e também de minha mãe. Por isso, essa resenha terá um tom bastante pessoal.

Enredo

Em Que Horas Ela Volta?, Muylaert conta a história de Val (Regina Casé), uma pernambucana que deixou sua terra e uma filha ainda pequena, Jéssica (Camila Márdila), para tentar a vida como empregada doméstica na cidade de São Paulo.

Por mais de dez anos, a nordestina trabalhou como babá e empregada doméstica na casa de Bárbara (Karine Teles) e José Carlos (Lourenço Mutarelli). Nesse tempo ajudou na criação de Fabinho (Michel Joelsas), filho único do casal de classe alta, estabelecendo com o menino um laço emocional muito forte. Em contrapartida, durante isso Val se viu privada da convivência com a própria filha que só via quando viajava de férias ao Pernambuco, participando muito pouco do crescimento da menina.
Além disso, na convivência próxima com pessoas de classe muito alta, a pernambucana aprende a obedecer uma série de convenções que por elas foram estabelecidas para separar patrões e empregados e impor a estes últimos certos limites de intimidade.

A trama do filme se passa justamente quando, uma década depois, Jéssica resolve ir morar com a mãe para tentar ingressar no concorrido curso de arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU).

Por exigência dos patrões ou por necessidade – o filme não esclarece – Val desde o início passou a viver no trabalho, ocupando o espaço diminuto de um quarto da área de serviço, onde também armazenava todas as suas coisas.

Mesmo com todos os anos de serviço nunca chegou a ter uma casa própria. Em conta disso, Val se vê obrigada a levar a filha para seu trabalho, enquanto buscava uma casa que pudessem alugar. Contudo, a chegada da inteligente e audaciosa Jéssica traz uma série de problemas para mãe.

Ignorando qualquer convenção que lhe dissesse qual o seu suposto lugar ou qual a maneira como se portar dentro da casa dos patrões de sua mãe, Jéssica acaba por atrair não só a ira de Bárbara, como também as atenções dos homens da casa, e, pouco a pouco, com suas atitudes expansivas e de insubmissão às regras sociais ali impostas vai mudando a forma de pensar e de ver o mundo da própria Val.

Os Personagens e seus papéis

Que Horas Ela Volta? possui personagens bem particulares, mas que, ao mesmo tempo, caminham por uma linha tênue que separa o estereótipo e a representação social de diferentes grupos. Ainda assim, cada personagem que figura a narrativa cumpre o papel de representar no conjunto o teatro social brasileiro, seus principais personagens, suas distorções e convenções.

Val tomando um pouco de sol, após terminar a lavagem da roupa da casa.
Val é uma pessoa divertida, expansiva e desengonçada, como a caracteriza Adriano Senkevics[1] do Ensaio de Gêneros, mas, ao mesmo tempo, ela carrega no olhar o peso dos anos e da rotina de trabalho além de um sofrimento silencioso que nasceu da distância que se interpôs entre ela e sua única filha Jéssica.

Como profissional é o tipo da empregada dedicada ao que faz, que se sente próxima dos patrões, mas sem deixar de manter um certo distanciamento respeitoso, não se permitindo ser íntima demais ou tomar liberdades que não condigam com sua posição de empregada. Nos seus gestos, palavras e atitudes humildes, sobretudo quando se desculpa por algo, é notória uma submissão pouco velada. Val é para mim como aquele personagem que vive em suspensão, em um eterno estado de transição que nasce da dualidade entre ser íntima e não o ser e nem permitir-se ser inteiramente, nem a todo momento e nem com qualquer um.

Em seu papel social dentro da trama Val ainda representa a coluna mestra que permite a tantas famílias de classe média a reproduzir seu status quo: enquanto os pais trabalham e gozam de seus privilégios de classe, é ela quem de fato cria as crianças e garante o funcionamento da casa. Dela depende toda a família, nos mais diferentes níveis, sem que, no entanto, saia de sua posição socialmente estabelecida.

Jéssica e Bárbara em uma das cenas onde a patroa da Val
busca deixar claro qual é a posição de Jéssica em sua casa. 
Jéssica, por sua vez, é o posto da mãe, em seu olhar, que Val define como de uma superioridade que “olha tudo parecendo o presidente da república”, arde uma determinação silenciosa, mas mal velada, ora por um ar de tédio ou de curiosidade, ora por um gesto mais expansivo e alegre. É um olhar crítico que explode em provocações e que alerta a mãe sobre a sua condição de subalternidade, expondo a falsidade das relações imbuídas no “ser parte da família”. É por ter ciência dessa falsidade que Jéssica não se diminui enquanto pessoa, preserva seu orgulho, aplica-se em seus estudos para ascender socialmente e, principalmente, transgrede qualquer regra social que lhe seja imposta ou a diminua à condição “de cidadã de segunda classe”. Por isso é um personagem que divide opiniões, porque mexe em uma ferida mal curada e aberta desde que foi declarada a abolição da escravatura.

Ao mesmo tempo, Jéssica é uma estudante aplicada, porque vê nos estudos a possibilidade de um futuro melhor e nisso ela é também um contraponto a Fabinho. O rapaz, ao contrário dela, já tinha tudo e o seu ingresso na faculdade representava garantir o status quo da família no futuro.

Quanto a família para quem Val trabalha, cada um cumpre representar uma parcela de uma classe que no Brasil é cercada de privilégios, detém o poder econômico e historicamente vem ditando as regras sociais dentro da sociedade brasileira.

José Carlos e Jéssica em cena na qual ele apresenta seu trabalho como pintor. 
José Carlos é o rico excêntrico que tendo enriquecido por conta da herança de família se tornou artista passando a viver só de sua arte. Ele não se veste luxuosamente, mas não é muito diferente da esposa no que diz respeito ao tratamento dispensado a Val. Ela é a empregada de confiança, mas é a empregada. Por ter entrado em um casamento que não o faz feliz, se sente atraído pela beleza, juventude e inteligência da filha da empregada e por isso a cerca de mimos. Entretanto, quanto a mãe, esta continua sendo a serviçal que também passa a servir a filha quando esta está em sua companhia.
Fabinho é o adolescente mimado, inconsequente, despreocupado e acostumado a ter tudo sem se preocupar com a origem da sua riqueza ou com o futuro. Ao mesmo tempo é o filho pouco ligado aos pais que maior parte do tempo se encontravam ausentes e não o provia do carinho e da atenção que ele necessitava. Os ciúmes de Jéssica é automático apesar de ser pouco expressado, mas não tanto pelo pai, ou até por Val, mas pela presença de alguém que ele acha “segura de mais de si”.

Por fim, Bárbara é a típica socialite que não faz nada em casa por conta própria, ligada ao mundo da moda e que como patroa sempre se mostra amável, mas não perde a chance de mostrar veladamente e, nas entrelinhas, qual é o lugar da criadagem e o seu descontentamento em relação a presença de Jéssica em sua casa. Sua recepção a Jéssica, bem no início, é calorosa, mas apenas até ela perceber que a menina não ficaria “da porta da cozinha pra lá”. Até notar o interesse mal dissimulado do seu marido e, iminentemente, também do filho. Logo a máscara de boa patroa é substituída pelo olhar prepotente, altivo e de pouco contentamento e as indiretas começam a surgir. O desfecho já era esperado.

No fim, o conjunto desses personagens representa três grandes grupos: a classe média acostumada a mandar e ser servida; a geração submissa da classe trabalhadora acostumada a receber ordens, acatá-las e respeitar as convenções impostas pela estratificação, bem como a própria estratificação; e, por fim, Jéssica seria a nova geração, como afirma Léa Maria Aarão Reis[2], que persegue um Brasil mais igualitário com a diminuição das desigualdades entre classes, e que acredita que, através da educação, é possível alcançar essa redução da desigualdade e por, extensão, alcançar também uma vida melhor.

Conclusão: porque um bom livro?

Como os leitores sabem o 7ª Arte se dedica a falar tanto de adaptações de livros para o cinema, como de filmes que dariam bons livros. No primeiro caso teço críticas e comparações entre o livro e sua adaptação, mas no segundo caso explano os motivos que me levam acreditar que o roteiro de um determinado filme se transformaria em um livro interessante caso fosse escrito nesse modelo.

Confesso que minha escolha por Que Horas Ela Volta? tem razões muito pessoais. Ele é um filme que tem muito a ver comigo e por isso chamou bastante a minha atenção.

Assim como a personagem Jéssica já fui o filho da empregada doméstica que morava no serviço. Vivi uma década de minha vida em uma casa que não era minha, e apesar de ter uma relação relativamente boa com os membros da casa, também passei por momentos bem ruins e desconfortáveis que só quem já viveu na casa dos outros sabe bem como é. Além disso, reconheço em Val a labuta, a submissão, a quase servidão a que minha mães esteve submetida, bem como o comportamento condicionado por limites invisíveis e que ela, para nos manter lá, também me impôs.

Por ter visto e vivido de perto a realidade dos empregados domésticos é que achei poderosa a opinião de Léa Maria, quando afirma que a cineasta de Anna Muylaert, com seu trabalho, “toca num nervo infeccionado, até então camuflado, da classe média brasileira”: a “hierarquização feroz das classes no Brasil”.

Porém, aparte das minhas razões pessoais e logo egoístas, considero que a relevância dos temas que são discutidos por Que Horas Ela Volta? já o tornaria um bom enredo para livro. Porém, além dessa relevância, soma-se o fato de que ainda não li um livro brasileiro que abordasse a questão dos trabalhadores domésticos desta maneira. Conheço apenas uma obra estrangeira que tenta desbravar as intrincadas relações entre patrões e empregados domésticos. Esse livro seria O Diário de uma Camareira, de Octave Mirbeau, mas que pelos seus 117 anos de existência fala de um contexto histórico muito diferente, além de ser sobre outro país.

O trabalho domestico na mansão de Bárbara.
Em primeiro plano, Val e a diarista que lhe ajuda com a limpeza da casa. 
O filme também soube retratar muito bem a realidade de um grupo social que possui muito pouca projeção no cinema e na literatura e que quando são representadas ou são destacadas as suas características quase sempre é de uma forma estereotipada.

Estou acostumado a ver no cinema e na literatura o empregado como uma espécie de figurante, ou personagem secundário, condizendo com sua posição dentro da casa dos seus senhores.

A cozinha é o lugar do mexerico, o mordomo é o lacaio fiel, a governanta é a tirana que conduz a mãos de ferro a criadagem subalterna, a empregada é o alvo preferido das ofensas, das provocações e humilhações de seus senhores. Esses são os esteriótipos mais comuns. Quando o personagem foge deles ela/ele é aquela pessoa maravilhosa, surreal, que merecia ser mais do que um simples empregado e por vezes é promovido a patroa/patrão. Logo é também um modelo nem sempre real.

Para mim, a Val de Que Horas Ela Volta? devolve a humanidade aos empregados domésticos ao ser retratada como alguém com seus próprios dramas pessoais, que padece os dissabores da profissão. Um alguém que é simples mas não ingênuo, que é envolvida pelo sentimento de dever imposto por sua posição, mas que também se envolve emocionalmente com as pessoas para quem trabalha, e que no fim, faz suas escolhas a partir daquilo que de fato é importante para si.

Ademais, Que Horas Ela Volta? tem um traço que gosto muito no nosso cinema: a sua capacidade de trazer histórias cheias de humanidade. Vi essa humanidade em toda a trama, na relação carinhosa entre Val e Fabinho e também no desfecho que fala de recomeço.

Trata-se de um filme que ao mesmo tempo que desnuda e expõe as relações entre ricos e pobres, patrões e empregados, também ressalta como o afeto pode estar pra além disso. Em meio a todas as questões de classe, o filme mostra que a humanidade existe no amor sincero cultivado ao longo dos anos com cumplicidade, afeto e atenção e não reconhece as fronteiras entre classes.

Val e Fabinho em uma das cenas que melhor representou o carinho entre os dois. 
Sempre ao lado de Fabinho, apoiando-o em tudo e preenchendo a lacuna de uma mãe ausente, Val constrói com o filho dos patrões uma relação muito próxima, muito sincera e muito bonita. A cena que mais me chamou a atenção foi quando com insônia, Fabinho deixou o conforto de seu quarto e vai se aninhar no acanhado espaço de Val, apenas para que ela acariciasse seus cabelos para fazê-lo dormir. Em contrapeso, seus pais lhe garantia tudo que fosse do melhor e a possibilidade de uma boa formação educacional, mas falhavam miseravelmente no que diz respeito à atenção, ao cuidado e ao carinho.

Enfim, é uma relação muito bonita de carinho e cumplicidade, nascida entre duas pessoas carentes de carinho, ele da mãe, ela da filha ausente. Sentimento raro, mas que mostra que, aparte de tudo, ainda somos humanos e em nossa humanidade, quando não nos deixamos levar pelas convenções sociais, somos capazes de amar e encontrar amor em toda parte.

Enfim, em seu conjunto e com a incrível atuação de Regina Casé, Que Horas Ela Volta? revela um retrato fiel das divisas sociais que separam as classes e que são reproduzidas em todos os contextos e dimensões da vida cotidiana da sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, tratou da humanidade nas relações sinceras. Um filme real, bonito, sincero, humano. Preciso dizer mais alguma coisa?

A película é uma produção dos estúdios Gullane e África Filmes, com co-produção de Globo Filmes e entrou em cartaz no ano de 2015. Foi ganhador do Prêmio Especial do Júri Pela Atuação para Regina Casé e Camila Márdila no Festival de Sundance. Venceu no Festival de Berlim o prêmio do Público de Melhor ficção na Mostra Panorama e o prêmio CICCAE. Venceu ainda no RiverRun International Film Festival pelo melhor roteiro, dentre outros prêmios no Brasil e no mundo. Tem duração de 112 minutos.

Abaixo você pode conferir o trailer do filme:

Trailer



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[1] https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2016/01/30/que-horas-ela-volta-um-filme-para-se-pensar-a-estratificacao-social-no-brasil/
[2]https://www.geledes.org.br/que-horas-ela-volta-com-medo-de-jessica/?gclid=EAIaIQobChMIx4mDzeXY1wIVS4GRCh1l8w4cEAAYASAAEgL-KvD_BwE
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