quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Retrospectiva 2016 Conhecer Tudo

Por Eric Silva

Mais um ano está acabando e como todos os anos nós ocidentais dedicamos os últimos momentos do ano que vai embora para refletirmos sobre o período que finda, e fazemos planos para o que chega. Vem sendo assim há muitas gerações e continuará sendo assim por muitas outras. Ainda assim, nunca na história deste blog tivemos uma retrospectiva, esta é, pois, a primeira. E porque fazê-la? Porque 2016 foi um ano especial para o Conhecer Tudo, o ano do nosso grande retorno, um ano de atividade intensa como jamais ocorrera aqui no blog em outros anos. Por isso, e para seguir a tradição ocidental, não poderíamos deixar que 2016 fosse embora sem que rememorássemos algumas coisas importantes que fizemos nesse tempo.

O retorno depois de quatro anos


O Conhecer Tudo foi criado por mim em 05 de Janeiro de 2012, quando publiquei a nossa primeira resenha literária, a do livro O Monte Cinco de Paulo Coelho. Mas até o começo de 2016, as resenhas e postagens do blog só eram publicadas de forma espaçada, com meses e até um semestre de intervalo entre uma postagem e outra.

Foi em 2016 que resolvi retomar e me dedicar mais ao projeto, criando novas redes de interação com o público (fanpage, Twitter, perfil no Google+, no Tumblr, no Pinterest e no Instagram) e aumentando a frequência de publicação. Com isso conseguimos mais seguidores e estamos muito felizes com isso, por que tudo o que fazemos é para o nosso público. Obrigado por estarem conosco.  

Hoje pretendo continuar com o projeto, mas sem saber se poderei continuar com o ritmo de publicação obtido em 2016. Em 2017 concluirei minha especialização e preciso me dedicar ao meu projeto de pesquisa, além disso preciso gerir outro blog, mais antigo e que esse ano ficou bem esquecidinho, o Geographia Mundi. Mas, de qualquer forma o retorno de Conhecer Tudo é definitivo.



O Ano da Espanha

Aqui no blog 2016 foi batizado como o ano de comemoração à literatura espanhola. De abril a dezembro nos dedicamos a leitura de livros da literatura daquele país bem como a resenhar alguns de seus filmes interessantes.  Mas a ideia de homenagear a literatura de um país específico não nasceu do nada, bem como a escolha pela Espanha não foi aleatória.

Tudo começou em abril, quando, depois de três anos, resolvi ler um livro que tinha comigo há muito tempo. Um livro que havia visto pela primeira vez na seção de livros de uma revista de grande circulação quando ainda vivia em Salvador, a capital baiana, mas que levaria muitos anos para fazer sua leitura. Este livro era A Sombra do Vento, do autor espanhol Carlos Ruiz Zafón.

Na época li o livro aos pedaços porque abril foi um mês tumultuado. Além disso, a edição que tinha comigo era portuguesa e muitos termos para mim desconhecidos dificultavam a leitura, mas mesmo com tantos obstáculos fui tomado pela narrativa e ao conclui-la já estava apaixonado pelos personagens, pela escrita do autor, e quando resolvi fazer uma postagem especial mostrando alguns dos principais pontos da cidade de Barcelona acabei me apaixonando também pela cidade catalã. Todos estes elementos me levaram a um plano ambicioso: um ano inteiro (ou quase, afinal já estávamos em abril) dedicado a conhecer a Espanha através de livros.

Foi assim, simplesmente da leitura de um livro fantástico que nasceu a campanha do #AnoDaEspanha, que inicialmente não incluiria filmes, ideia que surgiu muito tempo depois com o 7ª Arte.

Com a ideia na cabeça o que faltava era montar uma lista, um “roteiro de viagem”, o nosso itinerário. E para tanto comecei uma profunda pesquisa em busca de nomes, autores do país que tivessem sido traduzidos para o português, não importasse qual. Com a lista na mão fui em busca dos livros, primeiramente na Biblioteca da Filarmônica 30 de Junho, a única da minha cidade que empresta seus livros. Lá com ajuda de Sirleyde, a bibliotecária, encontrei o segundo livro para o itinerário: Antologia Poética de Federico García Lorca, o primeiro livro de poesia que leria após muitos anos.

Confesso que Lorca não me cativou, ainda mais porque não sou inclinado para a poesia, mas, ainda assim, dois de seus poemas, Manancial e Os encontros de um Caracol Aventureiro, foram de uma profundidade e beleza estética que não pude ignorar e resolvi dividi-las com vocês em português e na sua versão original em espanhol. Mas caminhávamos para setembro e eu não me sentia satisfeito, precisava de mais e voltando a pesquisa procurei livros digitais, sebos e livrarias online para montar o restante do itinerário que eu ia organizando em um mapa virtual do Google. No fim o nosso roteiro ficou composto por sete livros, alguns muito bons, outros apaixonantes e comoventes, no fim, cada um contava um pouquinho da Espanha, do seu povo, de seu passado.
 

Os livros do itinerário

1. A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón
2. Antologia Poética – Federico García Lorca
3. A Tábua de Flandres – Arturo Pérez-Reverte
4. Lágrimas na Chuva – Rosa Montero
5. Soldados de Salamina - Javier Cercas
6. Marcelino Pão e Vinho - José Maria Sánchez-Silva
7.A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones

E para muitos desses momentos também escrevemos postagens especiais, como o nosso texto sobre a Guerra Civil Espanhola ou como aquele sobre quem eram os Bastaixos, os trabalhadores que na Idade Média eram os estivadores do porto de Barcelona e que são figuras importantíssimas do romance de IldelfonsoFalcones, A Catedral do Mar {Resenha}. Este último foi o livro que encerrou a série de obras literárias resenhadas na campanha. Mas houve também os filmes, poucos na verdade – apenas três –, mas verdadeiras obras de arte.

Os filmes que assistimos

1. O Labirinto do Fauno – Guillermo del Toro
2. Volver  Pedro Almodóvar
3. La Lengua de las Mariposas – José Luis Cuerda


O #AnoDaEspanha foi um projeto interessante e bastante construtivo para mim, que me ensinou muitas coisas e que me apresentou a grandes autores que quero ler ainda mais como Zafón, Rosa Montero e Ildelfonso. Mais do que isso, me apresentou a um país fantástico, de beleza extenuante, que respira história com suas cidades centenárias, algumas milenares, repletas de construções antigas, castelos, palácios, jardins, ramblas e portos. Um país com um povo forte e que em muitos momentos de sua história lutou por suas ideias, pela sua liberdade contra governos ditadores. Com esta campanha conhecei verdadeiramente um pouco da Espanha, quase pude sentir seus cheiros e sabores e que fez nascer em mim um desejo sincero de visitar um dia, quando isso for possível para mim.


Outras campanhas: O 7ª Arte e Os livros da Minha Infância e Adolescência

Mas 2016 não foi apenas o ano da Espanha, nele também nasceram outros projetos que daremos seguimento ao longo de 2017 e enquanto o nosso blog prosseguir online.

 O primeiro desses projetos foi a campanha dos Livros da Minha Infância e Adolescência (#MeusLivros) que começou timidamente este ano com a resenha de A Serra dos Dois Meninos, livro de Aristides Fraga Lima. Essa campanha é limitada por um conjunto seleto de livros que marcaram a minha formação como leitor e como pessoa e é um projeto delicado para mim, porque nele não vão só os livros que eu li, mas parte das minhas memórias como leitor na infância e, sobretudo, na adolescência.

Tivemos ainda este ano o lançamento de outra campanha que nasceu da minha paixão pelo cinema. O 7ªArte, como a campanha foi batizada, tem como proposta resenhar filmes que foram baseados em obras literárias de diversos gêneros e nacionalidades e também filmes que, pela beleza e criatividade, poderiam, na nossa modéstia opinião, se tornarem excelentes obras literárias.

Nesse primeiro ano do 7ª Arte, as resenhas realizadas foram exclusivamente de obras espanholas, mas já tenho outros filmes incríveis na lista, muitos deles já conhecidos do grande público, outros nem tanto.

Parcerias, autores que conhecemos, leituras coletivas e outros livros

Mas em 2016 não lemos apenas para campanhas. Lemos em parceria com editoras e autores, em conjunto com grupos de leituras e livros que ficamos muito curiosos.

Uma das nossas principais parcerias este ano foi com a Editora Draco, uma editora especializada em livros de autores brasileiros, através da qual conhecemos autores incríveis e obras de alta qualidade.

Graças a Draco conhecemos primeiro o escritor Eduardo Kasse, autor de um dos melhores livros nacionais que tinha lido até então, O Andarilho das Sombras. Um livro que conseguiu algo que muitos que me conhecem diriam ser impossível: fez com que eu me entusiasmasse novamente por literatura brasileira.

Sou um daqueles leitores que ao longo de sua fase escolar foi quase que irremediavelmente traumatizado com as aulas de literatura brasileira e suas leituras impostas verticalmente e sem o tratamento adequado (estudos prévios sobre contextos de época, acompanhamento do professor quanto a linguagem, explicações adicionais sobre o enredo).

Saí da escola frustrado e generalista em relação a literatura de nosso país, mas a leitura do livro de Kasse me fez lembrar que a literatura é diversa e, a todo momento, novas estrelas surgem no firmamento. São autores que escrevem para diferentes públicos com novos temas, com boas histórias, com muita criatividade. Basta que desviemos um pouquinho o olhar da literatura estrangeira para enxergá-los. Kasse com seu livro de estreia, com seu primeiro grande voo, me deu um sacudida e me disse: estamos aqui esperando vocês. E lá fui eu.

Continuei com a parceria com a Draco e conheci Ana Lúcia Merege, outra fofa, muito atenciosa com seus leitores e com uma narração gostosa, de palavras muito bem escolhidas e cheia de simbolismos. Dela li três livros, O Castelo das Águias, em parceria com a Draco, Annae a Trilha Secreta, cedido pela própria autora para a Biblioteca da Filarmônica 30 de Junho [que estará disponível em breve no acervo] e o meu preferido, O Caçador, que será resenhado ano que vem [também estará disponível na 30 de Junho]. Com a Draco conheci também a obra originalíssima de J. M. Beraldo, autor de Império de Diamante.

Mas outra parceria incrível que fizemos foi com Marcos de Sousa, autor que esperamos que ainda faça muito sucesso nessa vida e que escreveu o inquietante Mensageiros da Morte, uma história cheia de ação e conspirações. Agradecemos a ele, bem como a Draco pela oportunidade de conhecer estes novos talentos e afirmamos nosso compromisso de conhecer outros ao longo de nossa existência quanto blog [prioritariamente] literário.

Mas não só de parcerias foi formada a nossa listinha de leituras em 2016. Tiveram ainda as leituras em grupo e outros livros independentes e escolhidos por atração, ou de forma aleatória.

Entre grupos de leitura destaco o grupo o Ler é Viver de minha querida Edilva Bandeira e do pessoal de Ilha Solteira. Sugerido por eles li livros fantásticos que me marcaram, como o comovente A Casa do Céu, de Amanda Lindhout e Sarah Corbett, baseado na triste experiência de Amanda quando esta foi mantida como refém de um grupo radical islâmico. Sugerido pelo grupo ainda li A Garota no Trem, de Paula Hawkins, livro que foi muito comentado neste ano. Infelizmente por falta de tempo não acompanhei o grupo em várias outras leituras.

Por fim, ainda resenhamos outros livros que escolhemos por outros motivos:

1. Los Alamos – Martin Cruz Smith
3. Beleza Perdida – Amy Harmon
4. O Príncipe – Nicolau Maquiavel
5. O Enigma de Alexandre – Will Adams

As Postagens Especiais

Em outras oportunidades já comentei sobre as postagens especiais, uma seção do blog do qual me orgulho muito. Essas postagens são sempre direcionadas a abordar algum tema que tenha sido contemplado pelos livros resenhados no blog. São textos de caráter informativo e didático que podem ajudar nossos leitores a compreender melhor os contextos dos livros que lemos e resenhamos. Gosto muito destas postagens porque elas aprofundam meus conhecimentos, me inspiram e variam a temática do blog, inclusive alguns dos posts mais acessadas são Postagens Especiais.

Em 2016, a primeira Postagem Especial do ano foi Os13 Mandamentos do Bom Leitor, a lei magna que rege todas as nossas atividades. Ali estão nossos valores éticos enquanto blog. Mas, sem dúvidas, a minha favorita foi Conhecendo Barcelona pelos passos de A Sombra do Vento na qual, usando de recursos de tour virtual da Google e imagens em 360 graus, além de imagens estáticas, mostrei a vocês um pouquinho da Barcelona do livro de Zafón, A Sombra do Vento. Mas houve outras que listo abaixo:



Conclusão

Enfim, como vocês podem perceber este foi um ano bem movimentado no qual fizemos muitas coisas. Um ano difícil, mas cheio de coisas legais também. Esperamos que 2017 não seja apenas um ano novo, mas também um novo ano, com muitas realizações para nós e para vocês. Espero que estejamos juntos em 2017. Obrigado pela paciência, e abaixo deixo alguns rankings para vocês.

Atenciosamente,

Eric Silva

Rankings
Os melhores livros resenhados no ano de 2016.

As cinco melhores obras de ficção do ano
1. A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones
2. A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón
3. O Andarilho das Sombras - Eduardo Kasse
4. Lágrimas na Chuva – Rosa Montero
5. O Enigma de Alexandre - Will Adams

Os quatro melhores livros estrangeiros
1. A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones
2. A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón
3. Lágrimas na Chuva – Rosa Montero
4. O Enigma de Alexandre - Will Adams

Os quatro melhores livros nacionais
1. O Andarilho das Sombras - Eduardo Kasse
2. Império de Diamante – J. M. Beraldo
3. O Castelo das Águias – Ana Lúcia Merege
4. Mensageiros da Morte - Marcos de Sousa

Os quatro melhores livros espanhóis
1. A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones
2. A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón
3. Lágrimas na Chuva – Rosa Montero
4. A Tábua de Flandres - Arturo Pérez-Reverte

O melhor HQ

O melhor livro de não-ficção
A Casa do Céu - Amanda Lindhout e Sarah Corbett

As quatro editoras mais lidas
1. Draco e Record
2. Companhia das Letras 
3. Edições Asa
4. Nova Fronteira

As dez postagens mais acessadas

1. Tonico - José Rezende - Resenha
3. A Tábua de Flandres - Arturo Pérez-Reverte - Resenha
4. A História da Escrita 2 - A Invenção da Escrita Cuneiforme - As Escritas Idiográficas
5. A Corrente da Vida - Walcy Carrasco Resenha
6. A Serra dos Dois Meninos - Aristides Fraga Lima
7. Conhecendo Barcelona pelos passos de A Sombra do Vento - Postagem Especial
8. A Última Grande Lição - Mitch Albom - Resenha
9. A Marca de uma Lágrima - Pedro Bandeira - Resenha
10. Um Gato entre os Pombos - Agatha Christie - Resenha

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

7ª Arte: La Lengua de las Mariposas – Resenha

Um filme baseado em três contos de Manuel Rivas

Por Eric Silva

“La lengua de la mariposa es una trompa enroscada como un muelle de reloj. Si hay una flor que la atrae, la desenrolla y la mete en el cáliz para chupar. Cuando lleváis el dedo humedecido a un tarro de azúcar, ¿a que sentís ya el dulce en la boca como si la yema fuese la punta de la lengua? Pues así es la lengua de la mariposa”.

(La Lengua de las Mariposas. In: Rivas, Manuel. ¿Qué me quieres, amor?)

A infância é um momento de descobertas. O período da vida em que um mundo cheio de mistérios se abre para nós. Mistérios que são revelados um após o outro de diferentes maneiras, através da escola, da observação dos adultos, do contato com os amigos e com a própria natureza. É o momento de experimentar os primeiros amores e as primeiras dores, de conhecer o significado da amizade e da perda. Uma viagem que nunca fazemos só.

Filme de José Luis Cuerda e baseado na obra de Manuel Rivas, La Lengua de las Mariposas narra a história de amizade e aprendizado entre o pequeno Mocho e seu professor Don Gregorio nos meses que antecedem a Guerra Civil Espanhola. Conta como aluno e mestre constroem uma relação de aprendizagem através da escuta e do estabelecimento de laços de respeito, admiração, cumplicidade e amizade, em uma época de grande instabilidade política e no qual os métodos de ensino ainda eram baseados na violência.

Resenha

Foi em abril desse ano que após fazer a leitura do livro A Sombra do Vento do espanhol Carlos Ruiz Zafón que decidi começar aqui no blog a campanha do #AnoDaEspanha. Hoje, oficialmente, vou encerrá-la para que ano que em 2017 possamos homenagear um novo país, uma nova literatura e um novo séquito de bons autores. E para finalizar aquela que para mim foi a campanha mais especial de 2016, escolhi fazer o segundo 7ª Arte com um filme espanhol especialíssimo que me emociona muito pela delicadeza com que trata o tema da infância e da educação, mas que infelizmente nunca vi em versão dublada para o português.

Moncho, interpretado por Manuel Lozano.
Dirigido pelo diretor, escritor e produtor de cinema espanhol José Luis Cuerda, La Lengua de las Mariposas (A Língua das Mariposas) é um drama que conta a história de como surgiu a amizade de Moncho (Manuel Lozano) com seu professor Don Gregorio (Fernando Fernán Gómez) e de como o menino superou seu medo da escola. O enredo se passa no ano de 1936, às vésperas da Guerra Civil Espanhola que mudaria os rumos da história do país e também dos personagens da trama. Desse modo o filme perfila a vida cotidiana de uma pequena comunidade galega, os posicionamentos políticos de alguns de seus moradores e os primeiros movimentos dos grupos nacionalistas de extrema direita contra os esquerdistas republicanos.

Personagem central da trama, Moncho era um menino esperto e muito ativo apesar de sua asma. Vivia com seus pais e o irmão em uma pequena vila rural da Galícia. O pai, Ramón (Gonzalo Martín Uriarte), era um alfaiate muito ligado a Frente Republicana Espanhola e durante o período em que esteve adoente ensinou o filho caçula a ler. A mãe, Rosa (Uxía Blanco), por sua vez, era uma dona de casa desvelada e bastante religiosa que vivia preocupada com o posicionamento político do marido. Enquanto que o irmão, Andrés (Alexis de los Santos), era um rapaz aprendiz de saxofonista e que mantinha uma boa relação com o irmão caçula.

Moncho e sua família reunidos durante a ceia
No ano de 1936, quando se desenrola a trama narrada pelo filme, o único medo de Moncho era ir para a escola, onde as crianças costumavam apanhar de seus professores. No primeiro dia de aula, quando foi chamado por seu novo professor, para que se apresentasse aos colegas de turma, o menino apreensivo e com medo urinou-se e fugiu para o bosque onde passou a noite escondido, deixando a todos preocupados. Contudo, Don Gregorio estava longe de ser o professor que Moncho e imaginava. Ao contrário era um senhor bonachão e um intelectual republicano em vias de se aposentar do ofício da docência. Por isso, preocupado com a atitude do novo aluno, Don Gregorio vai pessoalmente a casa da família para desculpar-se com o menino e tranquilizá-los, pois ao contrário dos demais docentes da época, o velho professor tratava seus alunos com complacência e buscava usar uma metodologia de ensino pautada no respeito, na não-violência e na formação de sujeitos livres. Assim, pouco a pouco, com sua inteligência e seu método de ensino, o velho professor vai conquistando a confiança e a atenção do pequeno que via um mundo novo desabrochar-se para ele.

É também em 1936, ora na companhia de seu amigo Roque, ora na de seu irmão, que Moncho vai descobrindo coisas do mundo dos adultos como a arte, o amor e o que é o sexo, através das histórias e do convívio com as pessoas da região, como Carmiña, uma garota que vivia isolada com sua mãe e seu cachorro Tarzan, mas que se encontrava às escondidas com um rapaz da vila. Encontros que furtivamente Moncho e Roque espiavam.

Uma das aulas ao ar livre do Don Gregorio (centro),
quando este fala da língua das mariposas (borboletas). 
Ao longo daquele ano, o pardal, como Moncho era chamado por su maestro, ao mesmo tempo que desfrutava a liberdade de sua infância, das brincadeiras e da escuta das aulas e palavras de seu professor, o menino vai acompanhando a vida dos moradores, os primeiros progressos da carreira de saxofonista do irmão e o aumento do fervor dos republicanos à medida que as notíciais dos embates políticos com os nacionalistas vinham de Madri. Contudo, 1936 não seria para Moncho apenas um momento de novas descobertas, seria também o ano em que conheceria a dor, o ódio e novos medos trazidos pelos prenúncios de tempos terríveis de guerra. Coisas complicadas e irracionais demais para que o menino pudesse compreender.

La Lengua de las Mariposas é uma história singela e tocante, uma narrativa contada a partir de pequenas cenas do cotidiano que nos vão falando de seus personagens, dos ideais, do medo e da luta pela sobrevivência. Um calidoscópio da vida, da infância, do amor, da política e da educação do início do século XX na Espanha, às vésperas do conflito que marcaria a vida, a literatura e o cinema espanhol até os dias atuais. Um enredo que foi composto por Cuerda a partir de três contos distintos do livro ¿Qué me quieres, amor?, obra do também espanhol Manuel Rivas e que infelizmente, até onde consegui pesquisar, não possui tradução para a língua portuguesa.

Com grande sensibilidade criativa o diretor costurou entrono do enredo do conto principal, que dá nome ao filme, as histórias de outros dois contos: Un saxo en la niebla e Carmiña. Para tanto o diretor espanhol vai ligando os personagens dos diferentes contos e associando-os através da figura de Moncho e de sua família, que originalmente eram personagens apenas de La Lengua de las Mariposas.

Não tenho prática com o espanhol, mas depois de dar uma olhada nos três contos consegui separá-los e entender algumas conexões realizadas pelo diretor do filme. Percebi inclusive que somente um telespectador muito atencioso, ou aquele que já tem conhecimento dos três contos de Rivas, atenta para o fato de que duas outras histórias correm paralelas ao enredo principal, isso porque o cineasta utiliza-se de vários personagens de uma e de outra história em um emaranhado que vai desde as associações familiares inexistentes na obra original a colocar um personagem em lugar de outro. Este último é o caso de Andrés que toma emprestado para si o papel do saxofonista de Un saxo en la niebla e, em uma viagem com a banda da Orquestra Azul, se apaixona por uma bela garota de traços orientais, mas que era casada com um homem bem mais velho.

O contexto histórico é um dos pontos altos da história, e peça fundamental de seu desfecho. Porém os atritos políticos entre os dois grupos políticos da época (nacionalistas e republicanos) é desnudado muito aos poucos, primeiro de uma forma discreta, aqui e ali, sugerido em um comentário, no título de um livro, em um cartaz pendurado na parede, nas convicções do professor. Mas a medida que a história segue seu curso o tema vai ganhando espaço e contorno, numa discussão no bar, em uma festa do partido e, sobretudo, no desfecho surpreendente e inesperado. Todavia tenho segurança para dizer que os temas infância e educação possuem mesmo ou maior peso na narrativa e povoa toda a extensão da história.

O cenário campestre é muito presente ao longo de todo o filme

Os cenários para mim foram os mais fabulosos porque exploraram a simplicidade do que é rústico e campestre, a história de construções austeras de um lugar de existência secular e a natureza dos bosques e das borboletas do norte da Península Ibérica. Cenários que falavam de seus personagens e de seus estilos de vida. Mas uma de minhas partes prediletas são as fotos de campesinos e citadinos da época que são mostradas logo no início da película. Nesse momento do filme a música de fundo me lembra a nostalgia de um passado que vai ficando longínquo, cada vez mais perdido no tempo, como se dissesse de um tempo em que fomos felizes, mas as circunstâncias fizeram com que se desse lugar a outro tempo diferente e melancólico.

A imagem antiga de crianças campesinas é uma das fotografias que iniciam a película.

Por fim, o desfecho da história é o momento mais comovente e o maior dos clímax da história, capaz de revoltar e dividir a opinião dos espectadores diante de algumas das atitudes tomadas por alguns personagens. Inclusive, a cena mais inquietante e comovente é a última fala do ator Manuel Lozano que interpreta Moncho, e que parece deixar uma mensagem cifrada e aberta a interpretação de quem assiste. Um filme até o fim delicado, profundo em sua simplicidade e sublime em sua mensagem.

La Lengua de las Mariposas entrou em cartaz pela primeira vez no ano de 1999, na Espanha. A película é uma produção dos estúdios do Canal+ España em parceria com Las Producciones del Escorpión, Sociedad General de Televisión (Sogetel), Televisión Española (TVE) e Televisión de Galicia (TVG) S.A. Tem duração de 96 minutos.

Abaixo você pode conferir o trailer do filme em sua versão dublada para o inglês (Butterfly):

Trailer





Postagens Relacionadas




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Ano da Espanha no Conhecer Tudo


Olá, caros leitores. 

Viemos hoje para falar de uma novidade aqui no blog. 

Estamos tão encantados com A Sombra do Vento, livro do autor espanhol Carlos Ruiz Zafón, e com a cidade de Barcelona, que tivemos o prazer de conhecer através de sua narrativa, que resolvemos dedicar o resto deste ano – que já caminha para sua metade – à literatura espanhola. 2016 será o ano da Espanha aqui no blog. 

Isso, porém, não significa que iremos nos dedicar exclusivamente a literatura deste país, mas que daremos maior destaque a mesma. Progressivamente, vamos escolhendo algumas obras de escritores espanhóis traduzidas para o nosso idioma e dividiremos com vocês o resultado de nossas leituras. Assim, conheceremos juntos um pouco da literatura deste país que vem nos encantando. 

Por isso, para começarmos, pedimos aos leitores que sugiram nos comentários algumas obras para o nosso itinerário por terras páginas espanholas.

Atte.,

Conhecer Tudo,
2016 – Ano da Espanha

Livros do nosso itinerário que já foram resenhados até agora:

#1 - Resenha de A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón
#2 - Resenha de Antologia Poética – Federico García Lorca 
#3 - Resenha de A Tábua de Flandres - Arturo Pérez-Reverte
#4 - Resenha de Lágrimas na Chuva - Rosa Montero
#5 - Resenha de Soldados de Salamina - Javier Cercas
#6 - Resenha de Marcelino, Pão e Vinho - José María Sánchez-Silva
#7 - Resenha de A Catedral do Mar - Ildefonso Falcones

Filmes do nosso itinerário:

#1 - Resenha de O Labirinto do Fauno
#2 - Comentários sobre o filme Volver
#3 Resenha de La Lengua de las Mariposas

Postagens Especiais do nosso itinerário:
#1 -  Conhecendo Barcelona pelos passos de A Sombra do Vento
#2 - Federico García Lorca: dois poemas selecionados - bilíngue
#3 - Os Autores que estamos lendo
#4 - Quem eram os bastaixos do livro A Catedral do Mar?
#5 - Trilha sonora dos livros A Sombra do Vento e A Catedral do Mar 
#6 - A Guerra Civil Espanhola e a Campanha do #AnoDaEspanha 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Guerra Civil Espanhola e a Campanha do #AnoDaEspanha – Postagem Especial

Por Eric Silva

“Esses cruéis três anos de luta fratricida foram uma experiência traumática que afetou diretamente a vida de famílias e colocou irmãos em lados opostos do combate. Os nacionalistas triunfantes garantiram a duração desse clima de ódio e divisão por 40 anos”
(Francisco J. Romero Salvadó)

Desde o primeiro livro da campanha do #AnoDaEspanha, A Sombra do Vento, foram raras as leituras em que não encontrei alguma referência a Guerra Civil Espanhola. Pequenina que fosse, ela estava lá citada, ou era o foco central da narrativa, como acontece em Soldados de Salamina, livro de Javier Cercas. Também houve casos em que, se a obra não citava este importante momento da história espanhola, este foi decisivo na vida dos autores lidos. Foi o caso do poeta Garcia Lorca, executado durante o conflito, e de José María Sánchez-Silva, que, lamentavelmente, esteve ao lado dos falangistas e, depois, do regime de Franco. Nos filmes que assisti para o primeiro 7ª Arte está também profundamente ligado aos episódios traumáticos do conflito. Em O Labirinto do Fauno presenciamos o terror do regime que nascia no pós-guerra e testemunhamos o drama vivido pelos soldados dos últimos focos de resistência. Por sua vez, em La Lengua De Las Mariposas, próximo filme do 7ª Arte, percebemos também como a tensão da guerra tangencia a narrativa, afetando seus personagens adultos tanto quanto as crianças.

O que aprendi através dos livros da campanha, das biografias dos autores e dos filmes do 7ª Arte, é que este foi um dos momentos que mais marcaram o país tendo desdobramentos desastrosos que ainda estão vivos no imaginário do povo espanhol. Prova disso é sua constante manifestação na literatura e no cinema daquele país. Não escolhemos os livros e os filmes com o propósito de contemplar o tema, mas ele se fez presente na maioria das vezes. As poucas exceções que nem a obra nem o autor foi relacionado a Guerra Civil foram com o romance futurista Lágrimas na Chuva, da autora Rosa Montero, e com livro o último livro resenhado para a campanha, A Catedral do Mar, romance histórico de Ildefonso Falcones que, assim como o romance de Montero, se desenrola em um tempo distinto e distante do século XX.

Diante de tudo isso, acho que seria imprudente não dedicar um espaço, uma postagem especial para o tema, e conhecer melhor o conflito e seus desdobramentos.

Antecedentes

Afirma Salvadó[1] (2008, p. 7) que a Guerra Civil Espanhola foi uma tentativa de resolver por meios militares uma série de questões sociais que já dividiam os espanhóis por várias gerações como reforma agrária, centralismo e autonomia regional, o papel da igreja Católica e das Forças Armadas. Tensões que se somaram até eclodirem na tentativa de golpe em 1936 que encaminhou o país a guerra. Por isso segundo o historiador as origens do conflito dimanam em períodos muito anteriores a década de 30:

Ruína do colégio das Escuelas Pías de San Fernando (bairro Lavapiés, Madri) incendiado e destruído no início da guerra civil em 1936. Permaneceu abandonado durante o franquismo, até ser parcialmente restaurado e transformado na biblioteca da UNED, em 2006. Foto: Wikimedia Commons.

“Na verdade, as origens da tragédia espanhola estão bem mais enraizadas na história do país. No máximo, seria possível afirmar que as sementes do conflito foram plantadas durante o meio século de existência do regime anterior, na Monarquia Bourbon restaurada, de dezembro de 1874 a abril de 1931. O radicalismo político, a revolta social e o intervencionismo pretoriano na Espanha dos anos 1930 foram a herança que as classes dirigentes monarquistas receberam da era da Restauração – e não conseguiram promover internamente a reforma democrática. A persistência do governo oligárquico tradicional – quando confrontado com a emergência da política de massas e as demandas de setores então recentemente mobilizados da população – deu início a uma época de conflito social armado e a uma polarização política quase sem precedentes, levando à substituição do regime liberal por uma ditadura militar, em 1923, e à queda da própria Monarquia, oito anos depois.” (SALVADÓ, 2008, p. 9).
Segundo Buonicore[2] (2016), já em 1931, a monarquia se desfaz com a renúncia de Afonso XIII, logo após a realização de eleições municipais, nas quais os republicanos obtiveram uma vitória esmagadora sobre os candidatos monarquistas. É neste período que nasce a república espanhola e a escalada de conflitos.

Tendo em vista estes acontecimentos precedentes, a Espanha, que já sentia os reflexos da Grande Depressão de 29, já adentrava a década de 1930, em meio a um cenário econômico muito pouco favorável, sobretudo, para as classes mais pobres da população, e com um panorama político dividido entre os partidários do retorno da monarquia (proprietários de terra, membros da Igreja Católica e o Exército que representavam o grupo dos Nacionalistas), e do outro, os trabalhadores urbanos, campesinos, sindicatos e esquerdistas que compunham o grupo dos Republicanos[3]. Desta forma, ao longo da década de 1930 dois grupos contrários emergem no cenário ideológico e político espanhol: de um lado a Frente Nacionalista e a Falange Tradicionalista Espanhola[4], representantes dos grupos conservadores da elite e de defensores de um regime totalitário de cunho fascista no país, e do outro a Frente Popular composta por líderes socialistas, anarquistas e comunistas desejosos de uma mudança social mais profunda, ainda que dentro deste segundo grupo não existisse de fato uma unidade de ideias e interesses.

Eleições de 1936
Mas o delicado cenário político veio a se agravar com as eleições de 1936, que deu a vitória, nas urnas, para a Frente Popular. Segundo Altman[5] (2011), é no final do ano de 1935, que, com um programa reformista como proposta de governo, a coalizão de partidos de esquerda conhecida como Frente Popular passa a se preparar para as eleições que teriam lugar entre 4 de janeiro e 16 de fevereiro do ano seguinte. Em oposição as propostas esquerdistas, a Frente Nacional foi criada. Ainda segundo Altman (2011), “a unidade das esquerdas ficou plasmada na Frente Popular por proposta do Partido Comunista. Os anarquistas, embora se negassem a formar parte da Frente, apoiaram suas candidaturas por antever a libertação dos presos políticos. Opondo-se a eles se formou a Frente Nacional, cuja cabeça mais visível era a CEDA (Confederação Espanhola de Direitas Autônomas) de Gil Robles que lançou uma agressiva campanha eleitoral apresentando-se como a última e única alternativa ante uma inevitável revolução bolchevique. Dentro da coalizão de direita ficou de fora a Falange porque não houve entendimento entre Primo de Rivera e Robles.” (ALTMAN, 2011).
Primo Rivera, fundador da Falange Espanhola.
Foto: Wikimedia Commons.
Com a vitória da Frente Popular, os temores dos nacionalistas era que os republicanos pretendessem uma revolução comunista, enquanto que a Frente Popular receava a tentativa de um golpe de Estado por parte dos nacionalistas. Segundo a Eurochannel[6](s/d), “os temores da Frente Nacionalista foram redobrados em virtude da participação de anarquistas da Frente Popular. Em geral eles eram mais contidos, mas dessa vez resolveram apoiar a Frente Popular porque o partido havia prometido libertar todos os seus presos políticos”.

Contudo, a vitória da Frente Popular não garantiu uma unidade entre os vários partidos de esquerda. Sua diversidade ideológica (republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas) e a demora para a implantação das reformas e ações prometidas durante a campanha atiçaram os ânimos daqueles que mais ansiavam o cumprimento de promessas como anistia a presos políticos e reforma agrária. “De repente, o povo resolveu começar a implementar as reformas por suas próprias mãos: a coletivização das terras e fábricas, às vezes por meio de violência” (EUROCHANNEL, s/d). Conta Altman (2011) que naquele ano uma grande multidão se dirigiu à sede do governo em Madri gritando por anistia. Em Oviedo, relata, uma das dirigentes do Partido Comunista e deputada por Astúrias, Dolores Ubárruri, abriu as prisões para libertar diversos presos, entre eles grande parte dos participantes do movimento grevista e revolucionário ocorrido entre 5 e 19 de outubro de 1934[7]. Além disso, afirma Buonicore (2016), “no campo, os camponeses sem-terra passavam a ocupar as grandes propriedades rurais. Igrejas, acusadas de serem centros de conspiração monárquico-fascista, foram atacadas e incendiadas”. O autor lembra que também neste mesmo período estabeleceu-se a autonomia da Catalunha e do País Basco.

A situação do novo governo se tornava cada vez mais delicada. Aumentavam as greves e as ocupações de terra e os conflitos sociais e trabalhistas ameaçavam a ordem constitucional (ALTMAN, 2011) e além disso os socialistas se negaram a formar parte do novo governo (op. cit.). A ação popular cada vez mais violenta amedrontava os conservadores, latifundiários e industriais que viam em lideranças de direita como a Falange e José Calvo Sotelo a esperança de salvaguardar seus interesses e patrimônios. A Flange, outrora um partido de pouca expressão (minoritário), passa a angariar um número crescente de membros e a escalada da violência incitada pelo partido leva a prisão de Primo de Rivera e o fechamento dos escritórios do partido (op. cit.). A agitação popular crescia, sobretudo entre os camponeses, e uma reação da direita já era esperada e não tardaria como nos relata Altman (2011):

“Para um número crescente de militares o golpe de Estado era a única forma possível de restabelecer a ordem. Advertido das conspirações, o governo enviou Francisco Franco para as Ilhas Canárias e o general Emílio Mola para Pamplona, onde se converteu no cérebro do complô”. (ALTMAN, 2011).

Francisco Franco em 1930.
Foto: Wikimedia Commons.
Contudo o exílio não seria suficiente para parar as ações dos golpistas e em maio de 1936 Mola traça toda a estratégia de ação para o levante golpista e para tirar Franco de seu exílio, angariando o apoio civil da Falange.
“Em 7 de julho, Mola decidiu que havia chegado o momento. Das Canárias, Franco se comunicou com o cérebro da conspiração. O plano para tirar Franco das Canárias e levá-lo ao Marrocos seguiu adiante. Mola alugou em Londres um avião e o piloto, que em 12 de julho aterrissou em Casablanca com Franco a bordo”. (ALTMAN, 2011).
Ainda no dia 12, o tenente republicano, José Castillo, é assassinado supostamente por falangistas. Em represália, o deputado da direita, José Calvo Sotelo, é assassinado, na madrugada de 13 de Julho, por republicanos, sendo o estopim para o começo do conflito. Em 17 de julho tem início o golpe de estado quando Franco toma o controle do exército espanhol no Marrocos e todas as tentativas de negociações do governo falham (EUROCHANNEL, s/d).

Participação estrangeira no conflito

É certo que chegou o momento em que de um lado os nacionalistas com as tropas do Exército sob o comando de Franco iam sistematicamente dominando grandes parcelas do país a exemplo de Navarra, Castilha, Galícia, partes da Andalucía e Aragon, enquanto os republicanos se entrincheiravam nas regiões de Madri, Valencia e Barcelona, mais ricas, industrializadas e onde o movimento sindical era mais forte e organizado. Contudo esses grandes avanços do levante golpista não podem ser explicados de forma reducionista sem que o contexto da época seja considerado. A guerra civil foi longa e se arrastou por quase três anos e foi bastante influenciado pela geopolítica do período. Aqui não pretendemos nos alongar mais do que já fizemos mas alguns pontos precisam ser esclarecidos.

Tropas da brigada republicana lutando na batalha de Belchite, 1937.
Foto: Wikimedia Commons
Segundo Salvadó (2008, p. 10) a maioria dos espanhóis não desejavam a guerra, mas isso não foi suficiente para impedi-la, porque mais do que fatores locais impulsionariam o conflito, e a Guerra Civil Espanhola seria influenciada pela geopolítica europeia do período entre guerras.

O período que se sucederam após a Primeira Guerra Mundial, entre os anos de 1918 e 1939, a Europa foi o cenário do surgimento dos movimentos totalitários nazifascistas e o continente logo testemunhou a escalada e expansão agressiva dos Estados liderados por Mussolini e Hitler em sua preparação para uma nova guerra de grande repercussão na geopolítica mundial. Por outro lado, este também foi um período em que as potências europeias vencedoras Primeira Guerra, com sua política de apaziguamento que davam a Hitler e Mussolini uma série de concessões, se silenciaram ante as pretensões expansionistas nazifascistas, mesmo quando, sobretudo, as ações do líder alemão quebravam todos os termos do Tratado de Versalhes.

Desde o princípio as forças Nacionalistas espanholas tiveram apoio externo das potências nazifascistas, e Alemanha e Itália, segundo conta Motta[8] (2008, p. 580), “solidarizaram-se com as forças contrárias à República por afinidade de ideias, afinal, do lado nacionalista alinhava-se coalizão de direita semelhante à que permitira a Hitler e Mussolini ascender ao poder, e contra os mesmos inimigos: comunistas, socialistas, anarquistas, democratas e liberais”. Entretanto apenas ideários convergentes não explicam a interferência ítalo-alemã no conflito, e segundo o mesmo autor, existiam outras “razões mais concretas”: “a Itália desejava estabelecer hegemonia na bacia do Mediterrâneo, e a Alemanha cobiçava os recursos naturais da Espanha para alimentar sua máquina de guerra” (idem, ibidem, p. 580). Mais à frente o autor complementa:

“Com seu ânimo agressivo e a convicção de que os países liberal-democráticos eram fracos e decadentes, os dois Estados fascistas mobilizaram tropas e recursos numa escala que nenhuma outra potência ousou atingir: cerca de 80 mil italianos e 20 mil alemães combateram na Espanha, sob o pouco convincente disfarce de tropas voluntárias, ao lado de 10 mil portugueses enviados por outro regime simpatizante, o de Salazar”. (MOTTA, 2008, p. 580).

Inclusive foi com a ajuda ítalo-alemã que as tropas de Franco conseguiram atravessar o Estreito de Gibraltar em 5 de agosto, saindo do Marrocos para se juntar ao resto do exército em solo espanhol (EUROCHANNEL, s/d).
Do outro lado as tropas resistentes republicanas eram composta em sua maioria pelos trabalhadores organizados pelos sindicatos e de pessoas recrutadas pelos esforços dos combatentes das brigadas internacionais, através de organizações ligadas à Internacional Comunista (MOTTA, 2008, p. 580). Ainda assim, os republicanos buscaram o apoio da União Soviética obtendo destes 2 mil assessores militares (op. cit.). Conta Motta (2008) que o apoio soviético aos republicanos em armas fora bem menor do que dos nazifascistas em decorrência, entre outras razões, dos empecilhos criados por ingleses e franceses para a chegada dos suprimentos bélicos vindos dos soviéticos para os republicanos, e sobretudo, por estes terem feito “vista grossa” as ações de alemães e italianos no conflito espanhol.

“A diplomacia inglesa, principalmente, que nesse caso arrastou consigo a França, temia mais a vitória dos republicanos que a dos franquistas, preferindo uma eventual hegemonia fascista na Espanha a correr o risco de ver a Península Ibérica cair na órbita soviética”. (MOTTA, 2008, p. 580-581). E tal atitude permitiu com que atrocidades como o episódio do bombardeamento de Guernica acontecesse.
Afirma Salvadó (2008, p. 10) que para muitos pesquisadores a guerra civil foi a prova da falência da República, seu fracasso, contudo, para o autor, esta constatação não seria verdadeira.

“O sucesso da República foi corroborado pela derrota do levante militar em quase dois terços do continente espanhol. Com algumas notáveis exceções, a rebelião só teve êxito nas áreas que tinham votado tradicionalmente a favor dos partidos de direita. Ao contrário de muitos outros países europeus, cujos sistemas constitucionais foram derrubados com relativa facilidade por forças de extrema direita, a República reagiu e lutou, e foram necessários 33 meses de embate brutal para que sua resistência fosse esmagada”. (SALVADÓ, 2008, p. 10).
Motta (2008) afirma que de início, os republicanos e nacionalistas tinham recursos semelhantes e como se observa na fala de Salvadó (2008) durante parte do conflito os Nacionalistas teriam tido dificuldades em derrubar a República mesmo tendo ao seu lado o exército insurgente. O que torna evidente que o apoio externo fora decisivo para que a campanha franquista obtivesse êxito e conquistasse mesmo as áreas que apoiaram os republicanos.

Porém, outro fator também pode ter influenciado o desfecho da guerra. Desde antes do início do conflito os nacionalistas possuíam uma maior unicidade mediante a colaboração entre as diferentes forças de direita, em quanto que os republicanos sofreram com as divisões e rivalidades entres os grupos que a compunha, o que contribuiu para a fragmentação das forças que lutavam em favor da república (SALVADÓ, 2008).

Em fevereiro de 1939, a Catalunha é conquistada pelos Nacionalistas assim como, pouco tempo depois, foi a vez da capital Madri (EUROCHANNEL, s/d). Em 1º de abril de 1939, Franco declara o fim da guerra e instaura um regime ditatorial que perduraria até mesmo após sua morte.

Guernica

Um dos episódios mais lamentáveis da Guerra Civil Espanhola foi, sem dúvida, o bombardeamento da cidade basca de Guernica pelas forças aéreas alemãs, um dos mais violentos ataques aéreos da história.

Segundo Tracco[9] (2007), desde o início da campanha militar que o General Franco havia tentado conquistar a capital espanhola, porém diante do seu fracasso de subjuga-la o líder do levante golpista decidiu direcionar sua atenção e exércitos para o norte do país, mais vulnerável do que Madri. “As regiões de Astúrias e Santander e as províncias do País Basco estavam em péssima situação militar. Lá, a força aérea dos republicanos era inexistente. Os céus estavam abertos para as bombas nacionalistas” (TRACCO, 2007).

A cidade de Guernica, localizada na província da Biscaia, comunidade autónoma do País Basco, seria o principal alvo por sua importância dentro da comunidade que havia tido sua autonomia reconhecida pela República em outubro de 1936.

Membros da Legião Condor durante treinamento em Ávila.
Foto: Wikimedia Commons.
Segundo Tracco (2007), para Franco aquela era uma oportunidade de humilhar o povo basco considerado pelos nacionalistas como traidores, além da cidade estar servindo de abrigo para refugiados oriundos de outras localidades atacadas pelo exército de Franco. Porém, os alemães tinham interesse no ataque à Guernica pois seria para eles uma grande oportunidade de testar os sistemas de bombardeios com projéteis explosivos e incendiários em uma cidade aberta” (TRACCO, 2007), ou seja, os nazistas viam no ataque a Guernica uma chance de ouro para testar o poder de ataque de sua força aérea, a temida Luftwaffe.

Ainda segundo o autor, na segunda-feira do dia 26 de abril de 1937, em Guernica acontecia a tradicional feira livre da cidade que atraía agricultores de toda a região, quando às 16h30, o badalar do sino da igreja anunciou a chegada da frota aérea da Legião Condor, a unidade militar alemã que atuava na Espanha por ordem de Hitler. Em poucos minutos iniciou-se o bombardeio da cidade. Após três horas de ataque e 22 toneladas de explosivos lançados sobre a cidade, o saldo de mortes contava o número de 1645[10].

Ruínas de Guernica
O ataque a Guernica teve grande repercussão internacional chocando o mundo pela sua violência, porém segundo Tracco (2007) o episódio não teria tido toda a visibilidade que teve se não fosse a obra homônima do artista espanhol Pablo Picasso (TRACCO, 2007).

Comunista e vivendo em Paris, Pablo havia recebido do governo republicano espanhol a incumbência de pintar um quadro para a decoração do pavilhão espanhol na Exposição Internacional de Paris com o objetivo de expor ao mundo o movimento golpista e legitimo de Franco. O ataque à Guernica foi a inspiração para o pintor espanhol que expôs na tela toda a indignação que o ataque lhe movia. De 1º de maio até 4 de junho de 1937, Picasso trabalhou dedicadamente a obra que titulou com o nome da cidade atacada pelas tropas alemãs.

Guernica foi exposta ao público pela primeira vez no dia 12 de julho. Um enorme painel de 3,49 m de comprimento por 7,76 m de largura que exibia com intensidade aflitiva o cenário da destruição da cidade basca e que por ordem do pintor só pôde ser levada à Espanha após a morte do ditador Franco.

Guernica, Pablo Picasso. Foto: Wikimedia Commons.






[1]SALVADÓ, Francisco J. Romero. A Guerra Civil Espanhola. Tradução Barbara Duarte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

[2]BUONICORE, Augusto. 80 anos da Guerra Civil Espanhola. Vermelho, [s.l.], 2016 disponivel em: http://www.vermelho.org.br/noticia/283839-1. Acesso em: 08 de novembro de 2016.

[3]http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/

[4] A Falange Española Tradicionalista foi um partido político fascista legalmente reconhecido durante a ditadura de Francisco Franco, na Espanha. Foi fundada por José Antonio Primo de Rivera, em 1933, a Falange aliou-se às forças nacionalistas de Franco durante a Guerra Civil Espanhola.

[5] ALTMAN, Max. Hoje na História: 1936 – Frente popular vence eleições espanholas. São Paulo, Opera Mundi, 2011. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/9695/hoje+na+historia+1936++frente+popular+vence+eleicoes+espanholas.shtml. Acesso em: 29 de novembro de 2016.

[6]EUROCHANNEL. A Guerra Civil Espanhola (1936-1939). [s.l.], s/d. Disponível em: http://eurochannel.com/pt/A-Guerra-Civil-Espanhola-1936-1939.html. Acesso em: 27 de novembro de 2016.

[7]https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_de_1934_(Espanha)

[8] MOTTA, Rodrigo Patto Sá. A guerra civil espanhola. Revista Brasileira de História, v. 28, n. 56, p. 579-582, 2008.

[9] TRACCO, Mauro. Bombardeio em Guernica: Chuva de fogo. Guia do Estudante, [s.l.], 2007. Disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/bombardeio-guernica-chuva-fogo-435298.shtml. Acesso em: 08 de novembro de 2016.

[10] http://www.dw.com/pt-br/1937-guernica-%C3%A9-bombardeada/a-800994
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