terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Castelo das Águias – Ana Lúcia Merege – Resenha

Por Eric Silva.

Multiculturalismo, identidade étnica e defesa da natureza em um cenário de fantasia e magia. Mais do que uma simples narrativa do gênero fantasia, O Castelo das Águias, livro da autora brasileira Ana Lúcia Merege, traz em seu bojo uma multiplicidade de temas, alguns de forma não muito explícita, mas que vão além da costumeira atmosfera que encontramos nos livros do gênero. São discussões que podem chamar a atenção daqueles leitores mais antenados com questões como cultura, identidade, docência e ambientalismo, mas que vão se mostrando subjetivamente presentes na narrativa, permeando a construção da personalidade e da identidade de suas personagens.

Sinopse

Ambientado em um mundo mágico onde elfos e humanos convivem sob as mesmas leis e compõem uma sociedade onde a magia é a principal marca e o elemento de confluência entre povos tão diferentes, O Castelo das Águias, narra a história de Anna de Bryle, uma meio-humana criada em uma tribo de elfos, mas que ingressava em uma das mais respeitadas escolas de magia de seu país como Mestra de Sagas e vê sua vida mudada por completo pelas pessoas daquele lugar tão acolhedor, mas também difícil.

Saindo pela primeira vez de sua comunidade, Anna se sente entusiasmada com a oportunidade que lhe é dada pelo idealizador da escola, o Mestre Camdell, mas experimenta também o peso das diferenças culturais entre a vida a qual estava acostumada com seu povo e da tarefa desafiadora de lecionar. Somado a essas questões, a nova professora ainda tem que conciliar suas próprias questões com as diferentes personalidades dos colegas, sobretudo, da imperiosa elfa Thalia e do misterioso Kieran de Scyllix. Mas se isso já não bastasse, a moça ainda se vê envolvida com questões político-militares do Conselho de Guerra das Terras Férteis que porão em risco a liberdade e sobrevivência das poderosas águias guerreiras que dão nome ao castelo.

Resenha

Primeiro livro da série Athelgard, em Castelo das Águias, Ana Lúcia, se preocupa em apresentar ao seu leitor o universo por ela criada. Vamos aos poucos, pelo olhar da protagonista Anna, conhecendo a mistura étnica que compõe a sociedade élfica e humana das Terras Férteis de Athelgard, as crenças religiosas, os costumes culturais de cada povo, os conflitos comuns que se davam nas fronteiras e a importância da magia naquela estrutura social.

Já dentro dos muros da escola de magia também vamos conhecemos a estrutura das diferentes formas daquela arte e a importância que a mente, o poder da palavra e o conhecimento das sagas dos heróis possuem para sua realização. Diria eu, que o Castelo é mais um livro de apresentação da série, de seu mundo e de seus personagens. Como tal ele acabou abrindo espaço para algumas questões muito interessantes e quero pontuar algumas delas ao longo desta resenha.

Referências e originalidade

Quem lê o livro de Ana Lúcia de imediato percebe algumas de suas referências, sobretudo, o universo de Harry Potter e alguns poucos elementos de O Senhor dos Anéis. Não sei se a autora deliberadamente se inspirou nestes livros, mas em alguns pontos as histórias se aproximam, sobretudo na ideia de uma escola de magia e seu singular séquito de professores, presente na série da britânica J. K. Rowling, e as criaturas mágicas representadas pelos elfos, cuja presença é marcante no livro de J. R. R. Tolkien.

A autora. Imagem: Biblioteca Nacional.

Porém, a autora com criatividade soube demonstrar sua originalidade ao se concentrar em um dos mestres da escola, indo em sentido contrário ao que vemos em Harry Potter, cuja história se encontra centrada nas experiências e aventuras de um grupo de estudantes da escola de magia idealizada por Rowling. Mas a originalidade do livro não para por ir e a criatividade da autora desponta, sobretudo, ao criar um universo de convivência íntima e amistosa entre criaturas mágicas e humanos – muito perceptível na sociedade multicultural que é formada na cidade de Vrindavahn – e ao criar uma personagem com referências étnicas tão fortes como as existentes em Anna.

Quem pensa, logo ao iniciar o livro, que a história será uma reprodução de tudo que já foi visto nos livros citados descobre o engano ao conhecer mais profundamente as personagens e a bagagem por elas trazidas. É certo que há muitas semelhanças, mas quero aqui ressaltar o que este livro tem de diferente.

Multiculturalismo, miscigenação e identidade étnica

Uma primeira marca de O Castelo das Águias que chamou minha atenção foi o multiculturalismo presente na sociedade idealizada pela autora. Ana Lúcia cria uma sociedade onde os costumes e crenças de seres humanos e elfos se misturam.

Multiculturalismo, em interpretação livre do rigor acadêmico, significa a presença de diversas culturas no seio de uma mesma sociedade ou coexistindo em uma mesma região. No livro temos algo parecido, marcadamente na cidade de Vrindavahn. Quando Anna chega a cidade e caminha pelas suas ruas, ela inevitavelmente tece uma comparação entre os costumes de seu povo e os elementos que ela empiricamente podia observar no mercado da cidade. Mas, mais do que isso, ela destaca o quanto elementos culturais de ambos os grupos se mesclavam ali:

“As roupas das pessoas também eram diferentes, mais curtas e leves do que as usadas em Lardale. Os delicados bordados figurativos, comuns entre os elfos brilhantes, estavam nos vestidos das moças humanas, e alguns rapazes dispensavam calças e calções em favor de túnicas na altura dos joelhos. Isso era muito mais comum entre os que pareciam abastados, fazendo com que eu me indagasse se, bem lá no fundo, não desejavam ser como a nobreza élfica. Ou aquela mistura de estilos era mais uma consequência natural do convívio entre as raças?”

Nesta passagem Anna constata a partir do vestuário a existência desta convivência de costumes e que se miscigenam em um todo cultural, mas que em parte também se diferia da região de onde a própria Anna vinha.

Indo mais além, essa miscigenação cultural me pareceu existir também no campo religioso em que um mesmo templo abriga diferentes cultos. Trata-se do Templo do Deus Único. Na narrativa, Anna explica que a religião professada pelo templo, apesar de bastante estrita, sobretudo para magos, era, ali em Vrindavahn, bem mais flexível quanto a magia e ao pluralismo que ali existia. Assim, os jovens magos seguiam aquela religião por duas razões:

"A primeira: a Magia da Forma e Pensamento podia ser praticada independentemente de qualquer crença. E a segunda, muito importante para quem se propunha a conhecer as Terras Férteis: a convivência de longa data com os elfos brilhantes, ou a necessidade de partilhar o território com eles, fazia com que os preceitos do Templo fossem mais flexíveis ali do que em outras regiões".

Estrita ou não o certo é que o templo abrigava dentro de si diferentes cultos a uma multiplicidade de deuses, ainda que trouxesse o nome de Deus Único. Essa foi para mim a maior prova de multiculturalismo na história e convivência entre culturas diferentes, mas não foi a única.

É válido ressaltar também que esta convivência está também no ensino da Escola de Magia que não se restringe ao estudo puro desta, mas associado às artes dos saltimbancos, músicos e artesões humanos, em uma integração de áreas de conhecimento no qual, elfos, meio-humanos e humanos estudam juntos elementos de ambas as culturas e com mestres das duas raças.

Mas, em se tratando de cultura, o que mais me chamou a atenção foi a identidade étnica muito forte trazida pela protagonista Anna.

Anna é meio-humana, o que significa que só uma parte do seu sangue é élfico e, no seu caso, uma parte muito pequena, mas foi criada por sua família em uma tribo élfica no coração da floresta dos Teixos. Apesar da cautela inicial que os elfos tinham ao se aproximar dela quando ainda era menina, Anna foi pouco a pouco sendo integrada a vida comunitária e vista como um igual enquanto crescia envolvida pelos costumes e tradições de sua tribo. Se isso não bastasse, a moça ainda sob influência da prima Maryan se apaixona pelas histórias dos seus antepassados e passa a escrever dezenas de narrativas contadas pelos mais velhos de seu povo. Essa experiência, sem dúvida, foi crucial para que Anna se tornasse Mestre de Sagas, mas sobretudo, para que ela criasse uma forte identidade com o seu povo, uma identidade étnica forte que ela defende, valoriza ao passo que a define como pessoa. Não é de surpreender que ela levasse consigo para a Escola de Magia toda essa carga simbólica.

A identidade étnica de Anna aparece por todo o livro, nos seus talismãs, no estranhamento que ela demonstra em relação a algumas práticas culturais das novas pessoas que conhece, na sua prática pedagógica, mas aparecerá mais fortemente nos capítulos 10 e 11 onde a personagem também descobre que dentro de si nascia uma nova identificação, com a Escola e com seu trabalho, que reforça sua identidade como Mestre de Sagas.

Considero Anna a melhor personagem do livro, uma pessoa notável pelo seu caráter e pela sua força que se mistura a uma certa fragilidade que a torna um personagem complexo. Mas será essa forte identidade étnica, sua identificação com seu povo e com a vida na natureza que a tornará ferramenta especial na luta pela preservação das águias que vivem ao redor do castelo.

Luta pela preservação da natureza

Militarismo, política e defesa da natureza (uso consciente e respeitoso da natureza) também são marcas interessantes do livro.

Na floresta ao redor do castelo vivem águias especiais que, por beberem de uma determinada fonte de água, podem ser transformadas em poderosas águias de combate. O problema está na impossibilidade de mantê-las por muito tempo distante da fonte, o que invariavelmente resulta no enfraquecimento e morte das aves.

Contudo, mesmo tendo conhecimento das implicações e do sofrimento que pode ser gerado às aves, o Conselho da cidade militar de Scyllix envia à Vrindavahn uma comitiva responsável por pleitear do Conselho de Vrindavahn a autorização para levar consigo algumas das aves. Como compensação o grupo promete desenvolver uma técnica que permitisse às mesmas sobreviverem longe da fonte e propõem guarnecer àquela e às outras cidades com as aves guerreiras que fossem desenvolvidas pela experiência.

De imediato, os professores da Escola de Magia e principalmente o Mago Kieran, que outrora foi o último Mestre de Águias de Scyllix e conhecia os riscos e as grandes chances de insucesso do projeto, se opõem aos intentos do conselho daquela cidade e lutam para convencer o Conselho de Vrindavahn a não ceder à proposta. É entorno desta problemática que gira em grande parte o enredo de O Castelo das Águias.

O que me chama a atenção na problemática do livro é o seu forte cunho de luta pela preservação da natureza, contrário aos fins militaristas que exporiam as aves ao sofrimento e morte. É notável também a dedicação dos magos à defesa das aves e a forma como argumentam contra um jogo militar e político que beneficiaria alguns poucos em detrimento do bem-estar dos animais.

Trata-se de um tema importante para o nosso mundo real, onde centenas de espécies animais e vegetais são extintos todos os anos devido às ações predatórias do ser humano, que visa seus interesses próprios e desrespeitam o direito natural dos animais de serem livres. Temos um mal costume de pensar nos animais como recursos, quando estes são seres vivos que necessitam de proteção.


Surpreendeu-me que esta temática fosse posta em um livro do gênero de O Castelo das Águias, que quase sempre se concentram e se delineiam apenas como livros épicos ou de guerras mágicas, e isso me fez lembrar do filme Avatar, onde algo parecido é feito. Contudo, encaro o enredo de Avatar como ficção científica e não como fantasia, o que demonstra mais uma originalidade do livro.

Docência e Narrativa Autobiográfica

Por fim, o último destaque que faço do livro está na prática docente de Anna.

Sou professor e universitário e como tal estou envolvido em diversas questões da área. Como tal, chamou minha atenção a prática de ensino de Anna que é condenada por uma das professoras.

Anna como professora de Sagas valoriza as narrativas de seus alunos, dos demais povos, inclusive o seu, valorizando a multiplicidade étnica das Terras Férteis e as narrativas autobiográficas[1] de seus alunos. Desta forma a mestra vai em sentido contrário aos seus antecessores que focavam exclusivamente nas sagas élficas, e devido a isso Anna é duramente criticada. Além disso a professora promove algumas outras mudanças na forma como as aulas eram ministradas e isso agrada os alunos.

Levanto a questão, porque, na educação, muitos professores possuem posicionamentos divergentes em relação às metodologias de ensino e o currículo. Alguns são mais tradicionalistas, outros mais reformistas e alguns, como eu, são de centro, buscando preservar o que é bom nos métodos tradicionais e mudar radicalmente onde é necessário inovar. Vejo no embate que Anna tem com um dos colegas um reflexo destas questões.

Considero louvável a posição de Anna de querer trazer para a sala a multiplicidade cultural presente ali, e valorizar a trajetória de seus alunos e das famílias destes, ainda que eu considere que as sagas élfica deveriam ser igualmente valorizadas. Mais uma vez a personagem me cativou e por isso espero encontrá-la novamente nos outros dois volumes da série: A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar.

Para quem quiser saber mais sobre a série, a autora mantêm um blog específico sobre ela onde conta as novidades e outros detalhes da obra: http://castelodasaguias.blogspot.com.br/.


A edição lida é de 212 e foi cedida pela editora Draco, em formato digital. A versão impressa da mesma editora contém 192 páginas.


Confira uma prévia do livro disponível no Google Books.






[1]O termo usado é puramente acadêmico e não consta no livro.
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