segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tonico - José Rezende Filho - Resenha

Por Eric Silva, dedicado à Lewie Jhony.

Já não me lembro como este livro chegou às minhas mãos, mas de uma coisa eu tenho certeza, assim como Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos, Tonico de José Rezende Filho foi e ainda é uma narrativa que mexe muito comigo, seja por que este livro é um triste retrato da realidade de muitas crianças brasileiras, seja porque o sofrimento e as quimeras de uma criança me tocam muito.

José Rezende Filho escreve uma breve novela onde cabe todo o desejo, sonhos e incertezas de um personagem que poderia ser só mais uma criancinha mimada e teimosa, mas que se mostra alguém ansioso pela independência.

Tonico, um garoto de 13 anos (quase 14), pertence a uma família pobre do subúrbio ferroviário do Rio de Janeiro. Ele acabou de perder o pai, o que o fez do dia pra noite o homem da casa, mas tempos difíceis despontam no horizonte. Sua vida muda de uma hora para outra e o garoto, cujas únicas preocupações eram estudar e brincar, é cobrado a se tornar um pequeno trabalhador.

O tio tenta reorganizar a vida da família da irmã dentro das suas possibilidades parcas e, na impossibilidade dele mesmo ajuda-los financeiramente, vê como única saída que o sobrinho mais velho passe para a escola noturna e comece a trabalhar para ajudar a mãe e a avó no sustento da casa.  

Incialmente, Tonico se sente eufórico diante dessa nova realidade de trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e ajudar a família de cinco pessoas (ele, duas irmãs, mãe e avó), contudo, trabalhar na loja do seu Duda ou na farmácia do Seu Fonseca não estavam no seu ideário. Tonico, que ainda se equilibrava sobre o fino fio que separa a infância despreocupada da maturidade cheia de responsabilidades, desejava trabalhar e ser útil a casa, mas não estava disposto a sacrificar sua liberdade e por isso não sabia como lidar com toda aquela situação. Ora desejava sua vida de volta, ora sentia que necessitava ajudar a família, necessitava vestir as calças do “homem da casa” assim como lhe falara o tio.  Mas, por outro lado, também queria ser independente, queria ser livre. É na cadência desses sentimentos que o garoto enxerga na vida de Carniça, outro pequeno trabalhador, a possibilidade de conquistar seus sonhos.

Carniça é um garoto negro que desde os seis anos ganha a vida trabalhando vendendo jornais de trem em trem e engraxando sapatos na Zona Sul do Rio de Janeiro. Vivia pelas ruas, dormia no deposito de jornais, comia em pensões e quando queria voltava para casa onde morava com a mãe e dividia com ela o dinheiro que conseguia. Apesar de tudo, Carniça era livre, algumas vezes conseguia reunir em um único dia 30 cruzeiros, fazia o que queria e “não tinham hora para nada. A vida, boa ou má, já lhes pertencia”. A mãe de Tonico detestava o garoto, mas Tonico o idolatrava como um modelo e esse modelo de vida tão novo, tão excitante, tão aventureiro e livre seduz o menino que passa a planejar sua fuga de casa para trabalhar pelas ruas como o amigo de futebol.  

Tonico é um livro que nos leva à realidade das famílias pobres do nosso país que diante da necessidade são obrigadas a colocar suas crianças para trabalharem expondo-as a todo tipo de risco. Os trabalhos que o tio de Tonico arruma para ele são leves, o garoto poderia ser considerado apenas como um aprendiz, no entanto os mesmos obrigavam o garoto a estudar a noite e ter uma rotina exaustiva. No outro lado, a vida de Carniça é ainda mais perigosa e insalubre. Além de não estudar seu trabalho é altamente degradante no sentido em que está exposto a todo tipo de violência e doenças.

Carniça é o modelo perfeito da criança pobre que vive em situação de rua, ou seja, trabalha nas ruas para adquirir seu sustento, contudo ainda mantem laços com a família. Mas a liberdade que esta vida proporciona a quem a vive é o que atrai Tonico, que sem nenhum conhecimento prático sobre tudo a que ele estará exposto, não sabe o quanto difícil e perigoso é aventurar-se na vida de uma pequeno trabalhador das ruas.

Convido-os a descobrir os desafios enfrentados por Tonico que confrontar-se com sua família para ir em busca de seus sonhos de liberdade. O livro possui uma leitura fluída e rápida, de uma narrativa onde o psicológico de cada personagem é muito bem costurado. Um livro sensível cujo personagem principal vive o conflitante desafio de crescer.

A edição lida possui 94 páginas, ilustrada, é do ano de 1993, e é pertencente a Coleção Vaga-Lume da editora Ática – uma coleção altamente recomendável e uma das responsáveis pela minha iniciação no mundo da leitura (cresci lendo-a). Minha avaliação pessoal: Muito Bom.

PS.: A História de Tonico possui uma continuação no livro Tonico e Carniça de Assis Brasil e José Rezende Filho. Esse livro foi pensado por Rezende Filho, mas infelizmente o autor faleceu sem concretiza-lo. Seu amigo pessoal Assis Brasil, então decidiu-se reunir as anotações e ideias de Rezende Filho e concluiu ele mesmo a história, nos presenteando com mais uma ventura do pequeno Tonico. Esse livro é inédito pra mim, mas assim que eu o conseguir compartilho com vocês minhas impressões. Até lá. 



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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Marca de Uma Lágrima - Pedro Bandeira - Resenha

Por Eric Silva

Poesia, amor, mistério e morte – adolescência – esse é o tempero que envolve o coração de uma jovem inconformada com a própria aparência e que, com seu espirito intenso e avido por amar e ser amado, povoa de poesia as páginas de A Marca de uma Lágrima um conhecido infanto-juvenil do consagrado escritor brasileiro Pedro Bandeira.

Gosto de Bandeira, isso é fato incontestável! Considero A Droga da Obediência um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, pela forma ousada com que Pedro Bandeira narra (ele é um verdadeiro quebrador de tabus) e a franqueza de sua escrita. A Marca de uma Lágrima não é diferente, sobretudo quando Bandeira despi a jovem Isabel em corpo e em alma e costura um personagem, que mesmo jovem, fala de amor e sexo em verso e em prosa como um adulto de mente culta e criativa. Talvez esta seja a palavra que melhor descreve Isabel: criatividade.

Isabel é uma colegial de 14 anos, filha de pais separados e com uma mãe que não a compreende e nem a escuta, estando sempre mais preocupada com suas externas enxaquecas. Isabel é também, assim como muitos adolescentes – diga-se de passagem - inconformada com a própria aparência (se acha gorda e feia) e que desconta no espelho a quem trata de inimigo e que ela mesma personifica e dá vida através do êxtase criativo de suas emoções mais intensas. Intensidade é outra palavra que traduz a garota, que também sabe ser irônica e venenosa quando seu espirito ou a situação lhe convém ser.

Pedro Bandeira. Fonte: Wikimedia Commons
Tão absorvente são suas emoções que levam a menina a apaixonar-se desmedidamente e à primeira vista (literalmente) pelo primo que ela nem mais lembrava que existia, mas que sai do anonimato para se tornar aos seus olhos um deus grego reencarnado entre os mortais, um Apolo ou Dionísio que ela prefere chamar de “sonho”. Tudo acontece quando a mãe da garota a força a ir à festa de aniversário do primo, e para não estar sozinha junto a pessoas que para ela eram praticamente estranhas, Isabel leva a tiracolo a melhor amiga, Rosana. Contudo, o destino – ou o Cúpido, para gente não sair da Grécia (rsrsrs!) – leva Cristiano a se apaixonar-se pela amiga de Isabel. Esquecida pelo primo, Isabel se afunda na bebida e trata muito mal um rapaz que tenta corteja-la no jardim, seu nome é Fernando. Conseguindo despistar por um momento o rapaz ela tenta se esconder no jardim e espia um casal de namorados, que apesar da bebida, ela tem certeza que é seu primo e a amiga. Tonta de tão bêbada se desequilibra e cai no chão sendo levantada por um rapaz que o álcool a faz pensar ser Cristiano e o beija com fervor, beijo que não lhe sairá da mente alimentando ainda mais a paixão avassaladora pelo primo.

Abraçou-se fortemente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo forte deu-lhe febre e seus lábios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente, com cheiro de colônia. Uma correntinha roçou-lhe o rosto e ela ergueu a cabeça, oferecendo os lábios úmidos, ávidos, desesperados.Uma boca maravilhosa colou-se à dela, enquanto a força daqueles braços a apertava com loucura. Sentiu-se morrer de felicidade e o mundo apagou-se com o nome adorado estourando em sua cabeça como um coro de anjos.— Cristiano... meu amor...

Passado o episódio, o porre e a bronca da mãe, Isabel, ainda nas nuvens sonha e sente o beijo do primo e anseia dizer tudo que seu coração lírico tinha para afagar o dele e a oportunidade surge quando ele pede para que se encontrem secretamente, em um lugar calmo. Ela escolhe o laboratório de química um lugar que para um encontro poderia ser considerado tenebroso:

As janelas do laboratório eram cobertas com cortinas pesadas para proteger da luz os produtos químicos. Um lugar ideal para um encontro de namorados.
Aos poucos, com a fraca luz que se filtrava através das cortinas, Isabel pôde perceber as estantes envidraçadas, cheia de frascos contendo formas assustadoras conservadas em formol. Uma enorme cascavel, com seus guizos, flutuava num líquido avermelhado por seu próprio sangue. Ao lado, uma caranguejeira peluda movia-se lentamente numa gaiola de vidro.

Ali ela anseia pela chegada do primo tensa e inquieta para confessar-lhe o amor que a dominava, mas é lançada ao sofrimento quando Cristiano confessa-lhe a paixão pela amiga Rosana e pede a sua ajuda para arrumar o namoro dos dois. Mesmo destruída a garota aceita e naquele momento está amarrado o seu destino: ser um elo entre os dois namorados, ajudando a amiga a ser feliz as custas de seu sofrimento pessoal. Mas ali também antes que a menina abandone o laboratório algo estranho acontece, uma pessoa que ela não consegue identificar quem entra e meche em um frasco que depois ela descobre ser de linamarina (cianureto, um veneno extremamente forte).

A vida transcorre enquanto, mesmo despedaçada, Isabel ajuda o namoro da amiga escrevendo cartas para Cristiano em nome de Rosana. Tão apaixonadas são as cartas que Cristiano passa a ama-las mais do que ama a própria Rosana, a suposta autora, o que reforça o sentimento do rapaz pela moça. Do outro lado, Fernando, um rapaz maduro, as vezes parece bem filosófico, mas quase sempre é racional, provocativo e insistente, sempre se fazendo presente e persiste em cortejar Isabel, mas sempre sem sucesso, apesar de pouco a pouco conquistar a amizade da garota que emersa em seu dilema sentimental mal repara no rapaz. Mas o que Isabel não sabia era que novamente o destino lhe reservava surpresas e ela se vê envolta em um episódio perigoso quando testemunha a morte da diretora da escola, que num suposto suicídio é encontrada envenenada por cianureto. Mas nem tudo parece se encaixar... {não vou dar spoiler}.

Temos aqui uma história romântica e poética, em alguns momentos maçante, é verdade, mas que nos pega de surpresa com uma morte inesperada que coloca nossos personagens principais em maus lençóis. Pedro então nos conduz num vai e vem entre os pensamentos de Isabel, sua poesia e os fatos que se desenrolam até o fim surpreendente da narrativa.

Isabel é uma personagem apaixonada por poesia e literatura e que se expressa na poesia moderna com tamanha desenvoltura que chega assustar quem a ouve explodir em amor e desejo através das suas palavras. Um gênio criativo perturbado que devora autores renomados e de estilos marcantes como Paul Valéry, Vinícius, Ferreira Gullar, Garcia Lorca e Pablo Neruda. De tão fantástica Isabel parece irreal. Contudo, como uma faca de dois gume, o que faz da personagem interessante é também o punhal que enfraquece a narrativa e quando a paixão desmedida e quase sem proposito toma conta de forma excessiva do enredo este se torna um tanto desinteressante.

O interessante da história é a discussão que traz a respeito da questão, entre os jovens, da aparência. A imposição da sociedade de um padrão de beleza leva muitos adolescentes como Isabel a um estado lastimável de desconforto com a própria aparência e isso é trabalhado por Bandeira de uma forma fantástica: através da personificação que ele faz do espelho com quem Isabel discute como se fosse um ser real que a afrontasse e humilhasse incessantemente, um inimigo mortal sempre pronto a escarnecer da garota (deixo um trecho no final pra vocês curtirem). A forma aberta com que o autor fala de temas que envolvem a sexualidade, a sensualidade, o entregar-se e o desejo também é muito provocante e ousado, o que considero uma marca do autor como já comentei.

Indico o livro para os adolescentes que curtem uma história de amor e poesia moderna. Pode ficar um tanto chato em alguns momentos, mas vale apena ir até o final e descobrir o que o destino reservava a Isabel.

Minha avaliação pessoal: não supera A droga da obediência - que ainda terei o prazer de resenhar, mas é bom, enfim, um Bandeira.

TRECHO SELECIONADO

Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cínico, o mais sem piedade. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade que Isabel conhecia muito bem e que nunca a abandonava.
Ainda com a escova de cabelo na mão, ela não podia deixar de encará-lo. Lá estava ele, encarando Isabel de volta, com os próprios olhos da menina. De um lado, eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vítreos, impiedosos.— Feia...Isabel sufocou um soluço.— Gorducha...Uma lágrima formou-se na pontinha da pálpebra.— Que óculos horrorosos...Como um bichinho que foge, a lágrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos óculos.— Você plantou uma rosa no nariz, é?— Cale a boca... por favor...Já mais grossa, a lágrima livrou-se dos óculos e escorreu pelo rosto de Isabel.— Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande... A lágrima penetrou-lhe pelos lábios e Isabel reconheceu aquele gosto salgado, tão comum e tão amargo em momentos como aquele.— Por favor... me deixe em paz...— Você vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar... Os lábios de Isabel apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota que sempre tinha resposta para tudo, sempre uma gozação na hora certa, uma tirada de gênio que deixava qualquer provocador sem graça, não sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.—... e você vai ter vergonha de voltar às aulas na semana que vem...— Cale a boca!A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com força, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.— Isabel! Venha cá. Morreu aí no banheiro, é?A voz penetrou-lhe os ouvidos como uma campainha de despertador. A voz irritante da mãe.Estridente como uma campainha. Devia estar com enxaqueca, é claro. Na certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabeça, queixar-se de...O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. Isabel sacudiu a cabeça, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta.Uma última olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto a baixo."Sete anos de azar!", pensou Isabel. "Ah, o que são sete, para quem já viveu quatorze dos anos mais azarados do mundo?''

Um Estudo em Vermelho – Conan Doyle - Resenha

Por Eric Silva, pela Conhecer Tudo.

Um crime na cinzenta e chuvosa Londres e o escaldante Deserto do Colorado. O que há de comum entre eles?

Capa da edição lida da publicada 
pela Editora Melhoramentos.
Um estudo em vermelho é um clássico mundial, responsável por imortalizar um dos mais conhecidos autores britânicos do início do século XX. Não há uma só pessoa que goste de ler livros ficcionais que nunca tenha ouvido falar do grande e excêntrico detetive Sherlock Holmes criado pelo autor Sir. Conan Doyle. Holmes é um homem enigmático dotado de uma mente estritamente racional. Suas capacidades dedutivas vão além do normal e o mesmo busca desenvolve-las incessantemente com estudo científicos extremamente racionalizados, mas que nenhum cientista comum se inclinaria ou empreenderia seu tempo para realizar, como o estudo de pegadas e da cinza de charutos. Mas ainda assim, suas histórias conquistaram milhões de leitores ao longo de mais de um século desde quando Um estudo em vermelho apresentou-o ao mundo (o livro foi originalmente publicado em 1887).

Em nosso livro, Conan Doyle narra pela voz de John H. Watson, amigo e escudeiro de Holmes e é dividido em duas partes que narra duas histórias distintas, mas que se encontram como dois extremos de um mesmo fio. A primeira parte se sucede em Londres:

Watson é ex-médico militar que, depois de uma desventurada passagem pelo Afeganistão onde tomou parte na batalha de Maiwand durante a ocupação britânica do Afeganistão, retorna a Inglaterra a fim de restabelecer a saúde abalada durante o conflito. Sem muito dinheiro e longe dos parentes Watson vive na capital britânica em hotéis compatíveis com sua renda. Quando já estava decidido a ir embora da cidade londrina encontra em um bar Stamford, um de seus ex-assistente de hospital, e se alegra ao saber por ele que um outro cavalheiro desejava encontrar alguém para dividir as despesas de um apartamento alugado. Contudo, Watson é insistentemente alertado por seu ex-assistente acerca do temperamento e natureza peculiares de seu futuro flatmate (companheiro de apartamento): 

posso até imaginá-lo capaz de administrar a um amigo uma pitada do último alcaloide vegetal, não por malvadeza, compreenda-me, mas simplesmente pelo espirito da pesquisa e para ter uma ideia precisa dos efeitos. Faço-lhe, porém, justiça de admitir que ele próprio o tomaria com a mesma desenvoltura. Ao que me parece, a sua paixão é o conhecimento exato e completo”.

Contudo, Watson estava persuadido em convidar a notável figura para que com ele dividisse a despesa do aluguel de um apartamento e então não ter mais a necessidade de abandonar a capital. Por intermédio de Stamford Watson conhece Holmes no laboratório químico do hospital onde este trabalhava. Mas quando Sherlock Holmes os recebeu emocionado por ter encontrado um composto químico capaz de revelar evidencias de sangue (chave para a solução de vários crimes), e adivinhar precisamente que o médico vinha do Afeganistão, Watson teve uma amostra que aquele homem era muito mais do que seu ex-assistente pode lhe descrever.

Após um breve entrevista onde ambos expuseram seus principais defeitos e manias, a fim de se decidirem por dividirem o mesmo teto, o acerto é selado, sendo que no dia seguinte os dois alugam um apartamento no 221 B da Baker Street.

A coexistência entre os companheiros se dão de forma amistosa e conciliável. Cada um tentava conviver com os hábitos e manias do outro, sobretudo Watson em relação as esquisitices e mistérios de seu flatmate. Mas tudo o que Holmes fazia, as pessoas que recebia a sós na sala de estar e seus mistérios aguçavam a curiosidade do médico que ansiava compreender melhor quem era e ao que Holmes se dedicava. Ainda atiçava a curiosidade de Watson a dúvida de como Holmes deduzira que ele estivera no Afeganistão quando ainda eram totalmente estranhos um ao outro.

À medida que passavam as semanas, o meu interesse nele e a minha curiosidade quanto aos seus objetivos na vida iam gradualmente aumentando em extensão e profundidade. Até seu físico era tal que despertava a atenção do mais descuidado observador.

Watson só começa a compreender a inteligência prodigiosa e extremamente seletiva de seu companheiro quando sem saber o médico critica a completa ilógica de um dos artigos de Holmes sobre a ciência da dedução e este demonstrar o quanto era logica e coerente suas teorias. Holmes era um detetive nato, capaz de resolver os mais intrincados enigmas do mundo do crime, sem nem mesmo sair de casa ou ir in loco na sena do crime, bastava que lhe dissessem os pormenores dos fatos que ele apenas com o conhecimento racional, dedutivo e sistemático era capaz de solucionar o mistério. Tão certeiras eram suas deduções que os dois mais importantes investigadores da Scotland Yard, a Metropolitan Police Service de Londres, lhe pediam conselhos. Porém Holmes também era frustrado pois mesmo sendo um excepcional investigador, nunca colheu os louros de suas descobertas ficando sempre para polícia os créditos enquanto ele permanecia no anonimato.

Mas Watson fica surpreso com a grande capacidade de seu flatmate e o impele a aceitar o chamado do investigador Gregson para que fosse observar a cena de um crime ocorrido em condições misteriosas numa casa desabitada da Lauriston Gardens. É nesse ponto que a história começa.

Lauriston Gardens
Em uma das casas da Lauriston Gardens foi encontrada na madrugada o corpo de um americano que morrera em condições tais que se não fosse pelo sangue espalhado pela casa e o fato daquele estranha morte ter se dado em uma casa onde não vivia ninguém teria a polícia alegado à sua morte causas naturais, como ataque súbito, uma vez que inexistia marcas de tiros ou punhaladas em seu corpo, logo, o sangue não lhe pertencia. Além disso uma misteriosa inscrição feita em sangue numa das paredes da casa e que trazia a palavra rache, que, segundo o próprio Holmes, se tratava de uma palavra alemã que significava vingança. O crime parece insolucionável, contudo para Holmes “não há nada de novo debaixo do sol”.

A segunda parte da história somos transportados para um outra realidade totalmente adversa num recuo de tempo de várias décadas para o ano de 1847 e jogados em pleno deserto do Colorado diante de um viajante “esquálido e desencarnado” que mesmo vendo a morte se avizinhar permaneciam em seu caminho carregando nas costas uma pequena menina loira. Percebendo que sua jornada havia chegado ao fim, sentou-se com a criança sob a sombra de uma lapa, em companhia de abutres esperando que a morte chegasse para eles como antes havia chegado aos seus companheiros de viagem [mais do que isso é spoiler].

Nessa segunda parte, intitulada País dos Santos, somos levados por Doyle a uma paisagem muito adversa ao cenário londrino, posso afirmar que Um estudo em vermelho é uma história dentro da outra. Inicialmente País dos Santos, como um parêntese, nos lança em uma atmosfera diferenciada, cheia de conspirações, assassinatos e fanatismo religioso, decorado por um panorama paisagístico de tirar o folego. Doyle destila todo o seu potencial em uma narração descritiva impecável e extremamente geográfica do deserto:

(...) um árido e medonho deserto que por muitos anos foi uma barreira contra o avanço da civilização. Da Sierra Nevada ao Nebraska, e do rio Yellowstone, ao norte, até o Coloado, ao sul, tudo é desolação e silêncio. Mas nesta região sinistra a natureza não se apresenta sob um aspecto uniforme, pois que abrange altas montanhas cobertas de neve e vales profundos e tenebrosos. Há rios impetuosos que correm através dos cañons, e há vastas planícies que no inverno branquejam de neve e no verão ficam cinzentas de areia salitrosa e alcalina. Em tudo, porém, prevalece a característica de uma terra nua, inóspita e miserável.

É nessa paisagem que veremos desabrochar da flor do Utah que cresce entre os mórmons e protagonizará uma narrativa dramática.

Deserto do Colorado
Um estudo em vermelho é uma narrativa policial de muita criatividade, sobretudo que ela nos prende na tentativa vã de entender, até que se termine a história, qual a relação entre um assassinato ocorrido numa noite terrível e chuvosa e a narrativa que se desenrola nas vastas planícies áridas do Colorado.

Compreendo que existe dois tipos básicos de romance policial, uma mais tradicional onde a narrativa é preenchida sobretudo pelas capacidades dedutivas e arguciosas do investigador, onde a inteligência sobressai-se a história do assassinato; outras, mais modernas, onde o acaso é mais marcante na investigação, e a ação e as peças deixadas pelo caminho tomam conta da narrativa, sendo que a inteligência dedutiva do investigador é débil, ou pouco valorizada pela narrativa. Livros como os de Conan Doyle e Agatha Christie são do primeiro tipo. Eu, da minha parte, gosto de ambos os tipos, porque acima da inteligência do investigador, valorizo um bom mistério e histórias intricadas e difíceis de resenhar.

A edição que li é da editora Melhoramentos, editado em 1990, com tradução de Hamilcar de Garcia e capa de João Carlos Mosterio de Carvalho. 147 páginas. E minha avaliação pessoal é: Bom.

Abaixo trago um link para a edição ilustrada original em inglês do livro (A Study in Scarlet) disponível para ler online.







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sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Chegada em Darkover - Marion Zimmer Bradley - Resenha

por Eric Silva

Um acidente acontece e uma das naves terráqueas que se dirigia para mais uma das colônias humanas espalhadas pelos rincões do universo, cai em um planeta completamente desconhecido pela humanidade, um planeta inexplorado que reserva vários segredos a serem revelados. Uma série de pessoas morreram no acidente e tantas outras morrerão até que os sobreviventes conheçam e aprendam a sobreviver num mundo completamente novo.

A chegada em Darkover de Marion Zimmer Bradley é mais uma das incontáveis histórias de ficção científica que povoam a literatura mundial. Fazendo parte da famosa e imensa saga do planeta Darkover criada pela autora de As Brumas de Avalon. A chegada em Darkover não foi o primeiro livro escrito para a série mas aquele que conta como se deu início a saga humana naquele mundo aparentemente hostil. Darkover é um planeta regido por quatro luas e um grande sol vermelho, com seres completamente desconhecidos e com um clima bastante adverso e que carrega com sigo fenômenos bastante inquietantes como é o caso do "Vento Fantasma" que com suas propriedades psico-neurológicas é capaz de levar a insanidade temporária um número expressivo de pessoas fazendo com que estas percam toda a capacidade de agir racionalidade e se entreguem aos desejos e sentimentos mais inconfessáveis.

A nave semidestruída após pouso forçado. 
Ilustração de Ron Walotsky. Fonte: tor.com
Nos deparamos neste livro com uma humanidade intensamente cientifizada que buscará, alguns com mais relutâncias, outros com mais naturalidade, se adaptar a um mundo novo onde eles deverão construir uma nova sociedade a partir das possibilidades que o estranho planeta oferece. Fugindo um tanto dos moldes hollywoodianos de ficção cientifica, onde os grandes efeitos especiais e os instrumentos técnicos extremamente avançados roubam acena e não nos deixam a tentar para a pobreza literária da trama de fundo, A chegada em Darkover aposta no caminho contrário permitindo com que questões existenciais, filosóficas, emocionais, religiosas e culturais tomem conta da trama em muitos momentos. Assim a narrativa pode não agradar aqueles leitores acostumados a ficção cientifica cheia de robôs, carros voadores, exploradores do universo, seres alienígenas destruidores de civilizações. Mas certamente agradará a outros leitores por ser algo que aponta mais para a natureza humana, sem deixar, no entanto, de contar com os velhos mistérios do que é desconhecido e, logo, assustador, mesmo que não tenha razão de o ser.
Capa de edição mais recente do livro
O livro apresenta uma leitura fluída, e em alguns momentos muito rápida, exigindo do leitor atenção para não sair de uma cena e entrar em outra sem nem se aperceber da transição da narrativa. Particularmente me surpreendi com a rapidez com que terminei de ler, talvez por se tratar de apenas 111 páginas (eu li uma versão digital que rola na internet, mas algumas edições cadastradas no Skoob alcançam maior número de páginas: Editora Y (2004) - 238 pg. Editora Imago (1989) - 172 pg. Editora Círculo do Livro (1972) - 147 pg.). 111 páginas para alguém como eu que lê dezenas de artigos científicos todos os meses é pouco. Ler uma centena de uma narrativa bem construída é relativamente fácil e rápido, mesmo que o tempo para ler também seja escasso.



Não indico para crianças, mas para alguns adolescentes de cabeça mais aberta (como meus alunos) e realmente apreciadores da prática da leitura. Aos adultos, é plenamente indicável. Minha avaliação pessoal: bom


Quer ler outras opiniões? Leia textos de outros blogs:

http://mellbooks.blogspot.com.br/2010/11/resenha-chegada-em-darkover-marrion.html
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