domingo, 24 de dezembro de 2017

[Enquete] Ajude-nos a escolher o país que será homenageado na terceira edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo.


Olá pessoal,

Como nossos seguidores já sabem, aqui no Conhecer Tudo 2017 foi proclamado o #AnoDoBrasil, país que foi escolhido para ser o homenageado da segunda edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo. 

A ideia desta campanha surgiu em 2016, depois da leitura de A Sombra do Vento, livro de Carlos Ruiz Zafón. Foi daí que surgiu com a Campanha do #AnoDaEspanha, na qual buscamos conhecer um pouco da literatura desse país lendo autores como Zafón, Garcia Lorca, Arturo Pérez-Reverte e Rosa Montero, uma experiência interessante que nos fez conhecer um pouco mais deste pais e de seu povo através da literatura.

No final daquele ano, em uma enquete parecida com essa, o Brasil foi escolhido como o ano a ser homenageado em 2017. A campanha ainda não acabou e está sendo uma experiência interessante. Contudo, a campanha se encerrará agora no final de dezembro e, em 2018, outro país será homenageado. Por isso, pedimos sua ajuda na escolha de qual será o próximo país, a nossa próxima viagem pela literatura. 

Para a votação escolhemos cinco países diferentes:
1. Representando o continente africano escolhemos Moçambique.
2. Representando a Europa, a França.
3. Como representante americano, Cuba.
4. Para representar a Oceania a Austrália.
5. E por fim, representando o continente asiático, o Japão

A enquete de votação foi aberta no Google +, ficará fixa no nosso perfil e compartilharemos várias vezes nas comunidades em que somos membros para que o máximo de pessoas possam votar. Venha e participe e ajude-nos a traçar os nosso próximo itinerário pela literatura de um novo país. 

A votação será até 31 de Dezembro e você pode achar a enquete com o link ao lado: http://bit.ly/2y3RMPx

Obrigado pela participação!


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Vidas Secas – Graciliano Ramos - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.




Falar de uma obra de quase 80 anos e que já foi exaustivamente estudada, analisada e comentada é um desafio assustador, principalmente para mim que sou muito rigoroso em relação ao conteúdo do que falo e escrevo quando se tratam dos clássicos da literatura nacional e universal. Terreno perigoso para divagar e emitir opinião.

Ainda assim, falar de Vidas Secas é para mim imperativo, porque esta obra tão singular trata de temas com os quais volta e meia estou envolvido. Então, não falar da obra-prima de Graciliano não era uma opção e, por isso, quando ficou decidido que, em 2017, homenagearíamos a literatura brasileira, pensei de imediato que este livro não podia ficar de fora do itinerário da campanha do #AnoDoBrasil. Este é meu retorno a uma obra que li pela primeira vez aos 19 anos na ocasião do vestibular da Uneb. Hoje, mais maduro e com outros objetivos, meu olhar é outro e pude perceber a profundidade de uma história que tem um valor social e histórico muito grande e que deveria ser lido por todos os brasileiros. Um retrato de um Nordeste que mesmo hoje ainda se encontra profundamente marcado por sérios problemas sociais.

Confira a resenha do décimo livro da campanha anual de literatura e que nesse ano homenageia a literatura do Brasil.

Sinopse

Importante livro da literatura modernista brasileira, Vidas Secas, livro de Graciliano Ramos narra a história de Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cadela Baleia, uma família de retirantes famintos, que vagando pelo sertão seco encontram abrigo em uma fazenda abandonada e ali se instalam. Com o retorno das chuvas, o proprietário regressa à fazenda e acaba por empregar Fabiano como vaqueiro da propriedade, onde a família permanece o retorno do período de estiagem. Carregado de crítica social e expondo as feridas profundas de um Nordeste maltratado pela seca e pela desigualdade social e latifundiária, Vidas Secas é um dos mais impressionantes e emblemáticos romances da chamada geração de 30.

Resenha

Publicado pela primeira vez em 1938 pela editora José Olympio, Vidas Secas é a obra-prima do escritor alagoano Graciliano Ramos, um dos principais representantes da segunda fase modernista da nossa literatura. De caráter regionalista, o livro de Graciliano, bem como as de seus contemporâneos do regionalismo de 30, se difere enormemente do regionalismo da escola romântica do século XIX, pelo seu caráter realista e denunciativo, preocupado com as questões sociais e políticas da época no Brasil. Como afirmam Terra e Nicola (2005, p. 503):

As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o consequente questionamento das tradicionais oligarquias, os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social – verdadeiro documento da realidade brasileira –, em que as relações “eu”/mundo atingiam um elevado grau de tensão.

Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará.
Imagem: Wikimedia Commons
Com Vidas Secas não seria diferente. Principal marco da prosa da geração de 30 o tema explorado pelo romance não se limita a denunciar um Nordeste que sofria com a seca, mas que era – e ainda o é – igualmente marcado pela exploração do trabalho imposta pelos grandes latifundiários, verdadeiros detentores da posse da terra.

Um romance de pequena extensão, mas que expõe como nenhum outro o analfabetismo, a pobreza e a estrutura social e fundiária excludente pouco visíveis ao restante do país que enxerga o Nordeste apenas como a Região das Secas. Indo além da seca que dá nome ao romance esta é uma obra que fala da Vida, vidas que secam e se perdem na poeira da estrada. É, pois, uma denúncia das condições degradantes de miséria a que são submetidos os trabalhadores do campo, forçados a migrarem em busca de trabalho e melhores condições de sobrevivência.

Enredo e personagens

O enredo de Vidas Secas é do mais simples, apesar de trazer em seu bojo uma reflexão profunda da vida do trabalhador sertanejo que com sua família se retiram fugidos dos efeitos da seca.

O romance é composto em grande parte por pequenos momentos cotidianos dos personagens distribuídos em pequenos capítulos marcados pela falta de linearidade[1] – o que permite a leitura de cada um possa ser feita quase que de forma independente.

Logo no primeiro deles somos apresentados a situação lastimável da família de Fabiano que famintos e exaustos da viagem interminável caminhavam sob o sol abrasador. Neste momento, Graciliano, com sua narrativa seca e objetiva, busca ressaltar o farrapo humano no qual os cinco “viventes” se encontravam reduzidos. Tudo ali, seja na descrição dos “infelizes”, no seu caminhar arrastado em busca de alguma sombra, ou na atitude violenta de Fabiano com o filho que já não aguentava prosseguir com a caminhada, intencionalmente, o autor busca frisar o cansaço, a desgraça e o embrutecimento ao qual aquelas pessoas estavam submetidas ao longo de uma viagem fatigante e cruel pela caatinga ressequida.

Mas é após a chegada da família na fazenda abandonada, onde se instalam, que a narrativa prossegue apresentando as perspectivas, anseios e conflitos internos de cada um dos seus personagens, revelando seus dramas e conflitos pessoais à jusante da realidade de miséria, ignorância e exploração vivida pelos mesmos. Desta forma, a cada novo capitulo vamos nos aprofundando na visão que estes tinham de si, dos outros e do mundo. É, pois, nessa descrição dos pensamentos, anseios e reflexões que se encontra o valor intrínseco da obra. Narrador e personagem se fundem em uma só voz, o que chamamos de discurso indireto livre, dando vazão às frustrações, sonhos e medos que acometem aquelas pessoas simplórias e submissas aos desmandos da natureza e dos homens.

Capítulo por capítulo somos apresentados aos personagens. Primeiro a Fabiano, o chefe da família, um homem oprimido pela sua pouca capacidade de expressão e pobreza de conhecimentos, que ciente de sua exploração não sabe como se defender e se submete. Embora em meio a caatinga Fabiano se sinta pleno e valente, é no trato com as pessoas de fora que ele se reconhece diminuído, questiona sua humanidade e se sente inferior ao patrão e às pessoas de conhecimento e fala segura como sinhá Terta e seu Tomás da bolandeira. É neste momentos que se sente quase igual aos animais com quem lidava, quase um bicho.

Sinhá Vitória, quase sempre ocupada com os afazeres da casa tinha como único sonho uma cama de lastro de couro que substituísse a cama de varas que lhe incomodava as costas. Na visão de Fabiano, Sinhá Vitória é uma mulher forte e inteligente, “tinha miolo”. Como ele era analfabeta, e as vezes o marido caçoava da forma desengonçada com que ela andava com os sapatos de verniz, mas com suas sementes sabia contar e “nas situações difíceis encontrava saída”.

Por sua vez, nenhum dos dois meninos recebeu de Graciliano um nome. São diferenciados na história apenas como o “menino mais novo” e o “menino mais velho”. Contudo, a despeito de terem nome ou não, ambos possuem, na narrativa, personalidades bem distintas e marcantes.

O mais novo admirava o pai em seu trabalho como vaqueiro da fazenda, tentava imitá-lo, e por ser seu herói pessoal via-o maior do que de fato era. Por sua vez, o menino mais velho possuía uma capacidade imaginativa maior e se via atraído pelo universo das palavras, pelo desconhecido que existia em seus significados e nos montes além das terras da fazenda, onde imaginava residir forças maléficas e também protetoras, bem como criaturas inumanas, incríveis e mágicas que procediam como pessoas e conviviam com a eterna luta do bem contra o mal. Dessa forma o menino mais velho se demonstra o mais poético dos personagens:

Todos os lugares conhecidos eram bons: o chiqueiro das cabras, o curral, o barreiro, o pátio, o bebedouro — mundo onde existiam seres reais, a família do vaqueiro e os bichos da fazenda. Além havia uma serra distante e azulada, um monte que a cachorra visitava, caçando preás, veredas quase imperceptíveis na catinga, moitas e capões de mato, impenetráveis bancos de macambira — e aí fervilhava uma população de pedras vivas e plantas que procediam como gente. Esses mundos viviam em paz, às vezes desapareciam as fronteiras, habitantes dos dois lados entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se. Existiam sem dúvida em toda a parte forças maléficas, mas essas forças eram sempre vencidas. E quando Fabiano amansava brabo, evidentemente uma entidade protetora segurava-o na sela, indicava-lhe os caminhos menos perigosos, livrava-o dos espinhos e dos galhos.

É notável como Graciliano através dos dois meninos demostra o lado afetuoso, criativo e romântico das crianças, que enxergam, onde os adultos já não são capazes, a magia e a beleza, o fascínio e a inocência. Mas com certeza o personagem mais querido dos leitores do livro é a cadelinha Baleia, também a mais humana dos membros da família.

Sempre sensível aos anseios do filho mais velho, atenta às ações de todos, submissa e sempre disposta a relevar os maus-tratos dos adultos. Baleia é quase um membro da família [SPOILER em itálico] e seu final trágico é uma das cenas mais comoventes da história abalando sobretudo Fabiano, seu algoz.

Outro personagem que é importante destacar é o soldado amarelo, um tipo “fraco e ruim” que após perder um jogo provocara Fabiano até que este se exaltasse e tivesse um pretexto para espancá-lo e jogá-lo na cadeia, o que conseguiu fazer. Assim como o patrão que roubava nas contas e inventava juros e dívidas, o soldado amarelo cumpre na narrativa o papel de antagonista, a personificação da corrupção e da injustiça e que provoca em Fabiano o desejo de vingança. É também graças ao soldado amarelo que conhecemos a submissão de Fabiano frente ao Estado (governo), sua visão romântica do Estado como algo distante, perfeito, supra-humano e de autoridade indiscutível.

Murchar e florescer... palavras podem ser perigosas

Paisagem da Caatinga no período da seca,
 com o xique-xique em primeiro plano.
Imagem: Wikimedia Commons.
Como eu disse Vidas Secas é um livro de enredo simples, ainda que seja bastante profundo. Mas no bojo desta narrativa muitas outras coisas me chamam a atenção. A primeira delas é que ali a seca cumpre o papel do mais assustador dos algozes, a inimiga de vinda certa, sempre à espreita, aterrorizando sonhos, evocando a lembrança dos momentos ruins vividos, das perdas e fazendo lembrar de que a estada ali na fazenda é passageira, que não há raiz para Retirantes desprovidos de tudo, da terra, do saber, de dinheiro. É a certeza da chegada dela, da inevitável volta a estrada e, logo, da certeza da efemeridade de sua estadia ali, que mingua o sonho de se fixar, de criar raiz naquela terra que não lhe pertence, que nunca pertencerá.

Em contra partida, a esperança floresce no inverno. A chuva reintegra os sonhos, alimenta a esperança de mudança, como se tal fato fosse de todo a única coisa necessária para que a vida fosse outra, fosse melhor. Aproxima personagens que apesar de juntos se isolam e são isolados.

É válido ainda destacar o quanto a expressão (articulação) verbal entre os membros da família é pobre, estéril quase limitado a monossílabos e gestos confusos, como se não possuíssem o dom da fala. Os pais só falam com os filhos para repreendê-los e os diálogos, escassos, são bem mais gestuais. Palavras são escassas, e podem ser perigosas.

“Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.”

Sim, elas podem ser perigosas, e foram para Fabiano quando, por ter xingado a mãe do soldado provocador, foi parar na cadeia. Também para Graciliano que, pela sua posição crítica a sociedade de sua época, mas sobretudo pela sua posição política favorável ao comunismo, foi perseguido e até mesmo preso.

Mas a falta de diálogo entre os membros da família vai além da pouca verbalização, está também na incapacidade de expressão dos sentimentos, de responder as indagações das crianças, de atender suas necessidades, por isso os meninos são tratados com rudez.

“Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado:

– Esses capetas têm ideias...”

Por fim, foi gritante para mim, principalmente no primeiro capítulo, que a secura de que fala o título não está só na vida ou no período da estiagem, como também nas pessoas embrutecidas pelo sofrimento. Nos tornamos secos quando submetidos a hostilidade de um mundo opressor e indiferente ao sofrimento alheio
.

Graciliano Ramos de Oliveira. Data desconhecida.
O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

— Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

— Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário — e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

Enfim, Vidas Secas é uma obra excepcional. Gosto dela pela sua crítica social pertinente pelo seu gosto pela linguagem regional, pela cadelinha Baleia, pelo menino mais velho. Vivo no sertão, e me interesso profundamente pelo Semiárido Brasileiro, pela sua estrutura político-social e por sua história marcada pela injustiça. Pela luta de milhares de Fabianos que construíram a fortuna dos latifundiários, dos coronéis. Pessoas simples, mas dignas. Que conhecem a fome, a penúria e sabem valorizar o pouco, o mínimo. Que sonham com um sertão diferente, de fartura e liberdade.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2005 e possui 175 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Prévia do Google Books









[1] http://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/vidas-secas-analise-da-obra-de-graciliano-ramos/

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

#9 Lirismos: Romance II ou Do ouro incansável – Cecília Meireles

Postagem: Eric Silva

Mil bateias Vão rodando
sobre córregos escuros;
a terra vai sendo aberta
por intermináveis sulcos;
infinitas galerias
penetram morros profundos.

De seu calmo esconderijo,
O ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prestígio, poder, engenho..
É tão claro! - e turva tudo:
honra, amor e pensamento.

Borda flores nos vestidos,
sobe a opulentos altares,
traça palácios e pontes,
eleva os homens audazes,
e acende paixões que alastram
sinistras rivalidades.

Pelos córregos, definham
negros, a rodar bateias.
Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.

Por ódio, cobiça, inveja,
vai sendo o inferno traçado.
Os reis querem seus tributos,
- mas não se encontram vassalos.
Mil bateias vão rodando,
mil bateias sem cansaço.

Mil galerias desabam;
mil homens ficam sepultos;
mil intrigas, mil enredos
prendem culpados e justos;
já ninguém dorme tranqüílo,
que a noite é um mundo de sustos.

Descem fantasmas dos morros,
vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de ferro.


Sobre o autor

Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi uma jornalista, pintora, poetisa e professora brasileira. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901 e ali faleceu em 9 de novembro de 1964. Lançou seu primeiro livro de poemas, Espectros, em 1919, quando ainda tinha dezoito anos de idade. Participou do grupo literário da Revista Festa, de caráter católico, conservador e anti-modernista. Atuou como professora em várias universidade no Brasil e no exterior, e, na Universidade do Distrito Federal, lecionou Literatura Luso-Brasileira. Sua obra foi traduzida em vários países e é considerada a primeira mulher de grande expressão na literatura brasileira.
 






Poema extraído do livro Romanceiro da Inconfidência, publicado em 2013, pela editora Global.







domingo, 5 de novembro de 2017

[Cinema] 2017 é o ano de Agatha Christie nos cinemas


Por Eric Silva

2017 parece ser o ano de retorno das obras de Agatha Christie as telonas de todo o mundo. Somente neste ano dois dos mais importantes livros da autora foram adaptados para o cinema: Assassinato no Expresso do Oriente e A Casa Torta. Confira os detalhes.


Agatha Christie é internacionalmente conhecida como a Rainha do Crime por ter sido reconhecida como uma das mais importantes e mais lidas escritoras de romance policial da história. Por conta de sua fama e da popularidade de seus livros, contos e peças teatrais, muitas de suas obras foram adaptadas para o cinema e para séries de televisão em todo o mundo.

Publicado pela primeira vez em 1949, A Casa Torta é um dos poucos romances da escritora inglesa que nunca haviam sido adaptados, em contraposição ao Assassinato no Expresso do Oriente, que além de ser um dos livros mais vendidos da autora, já foi transformado em jogo de computador e adaptado para o rádio em 1992, para o cinema em 1974, e para a televisão, em 2001, pela CBS, em 2010, pelos ITV Studios e WGBH-TV e, em 2015, para a televisão japonesa, pela Fuji Television[1].

Em A Casa Torta (Crooked House), Agatha narra a história do assassinato do milionário octogenário Aristide Leonides que morava com a esposa, cinquenta anos mais jovem, além de toda a sua família. O título do livro se deve a peculiar arquitetura da casa dos Leonides, uma mansão localizada nos arredores de Londres e que tinha a inusitada característica de ser torta. É naquela mansão que o patriarca é assassinado por envenenamento, tornando todos os habitantes da casa em suspeitos, o que leva a neta mais velha da vítima, Sophia, e seu namorado Charles Hayward, filho do inspetor chefe da Scotland Yard, a investigarem o crime.

Agatha Christie considerava A Casa Torta, junto com Punição para a Inocência (1957), uma de suas melhores obras. A adaptação para o cinema, que ainda não tem data de lançamento no Brasil, foi dirigido pelo francês Gilles Paquet-Brenner que dirigiu, entre outros filmes, Lugares Escuros (2015) e A Chave de Sarah (2010). 

No elenco: Max Irons no papel de Charles Hayward, Stefanie Martini como sua namorada Sophia, Glenn Close como Lady Edith, Gillian Anderson estrelando como Magda West e Christina Hendricks como Brenda Leonides.

A película é uma produção dos estúdios Brilliant Films, com coprodução da Fred Films. Segundo o site da IMDb, entrou em cartaz em 31 de outubro desse ano na Itália, e está previsto, em Portugal, no dia 7 de dezembro. Tem duração de 1h e 55 minutos.

Por sua vez, Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express) conta a história de um assassinato ocorrido durante uma viagem do Expresso Oriente, o mais famoso e luxuoso trem de passageiros do mundo, que liga Paris à Istambul (antiga Constantinopla). Pertencente ao subgênero do “locked room” (“mistério do quarto fechado”), a trama põe como suspeitos todos a bordo do famoso trem (milionários, aristocratas e empregados) e o mais célebre detetive de Agatha Christie, Hercule Poirot, como o responsável por descobrir a identidade do criminoso.

A nova adaptação cinematográfica é dirigida pelo britânico Kenneth Branagh, diretor de Cinderela (2015) e Thor (2011) e é estrelado Albert Finney no papel de Hercule Poirot, Lauren Bacall como Sra. Hubbard, Martin Balsam representando Bianchi e Ingrid Bergman interpretando o papel de Greta Ohlsson.

A película é uma produção dos estúdios Twentieth Century Fox, com coprodução da Genre Films, The Mark Gordon Company, Scott Free Productions e Latina Pictures, com colaboração do The Estate of Agatha Christie. 

Segundo o site da IMDb, entra em cartaz no Brasil em 23 de novembro desse ano e tem duração de 1h e 54 minutos.

Confira os trailers dos filmes.



Trailer de A Casa Torta (Crooked House)



1º Trailer de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express)



2º Trailer de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express)





[1] https://en.wikipedia.org/wiki/Murder_on_the_Orient_Express

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

7ª Arte: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho – Resenha

Um filme que daria um livro interessante

Por Eric Silva


Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Poster do filme.
Imagem: Divulgação.
No primeiro 7ª Arte de 2017 falaremos de um filme de enredo singelo, mas muito interessante. Filme do brasileiro Daniel Ribeiro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um longa-metragem inspirado em um curta – Eu não Quero Voltar Sozinho – produzido pelo mesmo diretor, mas que teve grande aceitação do público pela delicadeza como tratava a questão da cegueira e da homossexualidade na adolescência. Preservando a essência de seu trabalho anterior, Ribeiro constrói uma trama simples mas repleta de temas importantes que são muitas vezes negligenciados pela sociedade vidente[1] e que ainda caminha no plano da aceitação e da tolerância ao que é diferente.


Sinopse    

Leo é um garoto que desde seu nascimento convive com a cegueira e a superproteção sobretudo da mãe. Em sua relação nem sempre muito fácil com a família, ele luta para conquistar sua independência ao mesmo tempo que enfrenta os pequenos dilemas comuns a qualquer outro adolescente. Em seu dia a dia, ele conta com o apoio irrevogável da amiga Giovana que o auxilia em suas atividades e defende o rapaz das brincadeiras maldosas de alguns colegas. Entretanto, tudo muda com a chegada de Gabriel. A amizade com Giovana é abalada e, no turbilhão de novas experiências, Leo descobre novos sentimentos e mais sobre si e sua sexualidade.



Depois de um ano, relembrando a proposta do 7ª Arte

Depois de muito tempo finalmente teremos o primeiro 7ª Arte de 2017! Mas antes de falar sobre a película fílmica da vez, acho que é interessante relembrar o propósito do 7ªArte que no Conhecer Tudo se difere bastante das críticas de cinema que muito de vez em quando faço por aqui.

O 7ª Arte nasceu ano passado, durante o #AnoDaEspanha, e nesse período resenhei dois filmes espanhóis: O Labirinto do Fauno e La Lengua de las Mariposas. Como somos um blog essencialmente literário, apesar de não ser unicamente voltado para isso, o propósito pensado para o 7ª Arte é falar de filmes ou que se basearam em obras literárias ou cujo enredo daria, essencialmente, em bons livros. Ou seja, no 7ª Arte, o objetivo não é falar de atuação, nem de fotografia, enquadramento ou todos esses aspectos do cinema que honestamente, não é minha praia. Gosto de boas histórias e por isso o foco do nosso projeto é na história, no enredo, de como ele foi adaptado para a telona ou de suas potencialidades literárias. Por isso, que não é nem todo, nem qualquer filme que entra para o projeto. Uma crítica contundente de uma adaptação exige a leitura prévia do livro e no caso de um filme original a história precisa ser boa.

Está aí a essência do nosso projeto que busca aliar o que há de melhor na sétima arte, o cinema, com a nossa arte predileta, a literatura.

Mas vamos ao filme de hoje.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Os três protagonistas. Da esquerda para a direita: Gabriel, Giovana e Leonardo.
Dirigido, produzido e roteirizado por Daniel Ribeiro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme brasileiro que conta a história de três adolescentes de classe média: Leonardo (Ghilherme Lobo), Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fábio Audi).

Leo é cego de nascença e tem na amizade com Giovana o seu principal apoio. Os dois são inseparáveis e Giovana ajuda o rapaz em muitas de suas atividades cotidianas como ditar as anotações do quadro e acompanhá-lo no trajeto de casa. Contudo, a amizade dos dois sofre um profundo abalo com a chegada e aproximação de Gabriel, um garoto recém-transferido da escola. Além disso, Giovana tem uma grande dificuldade em compreender o desejo de Leo de ir embora de casa e fazer intercâmbio no exterior para ficar longe da superproteção dos pais, deixando também ela para trás.

Como em qualquer história sobre adolescentes, Leo vive muitos dos dilemas e medos da puberdade: o desejo de beijar pela primeira vez, o despertar da sexualidade e o primeiro amor. Ainda, por ser cego, seus pais limitam bastante o seu ir e vir, exigindo dele que sempre informe onde está, proibindo-o de ficar sozinho em casa e só permitindo que ele vá as viagens e passeios da escola quando julgam seguro.

Desse aspecto surge outras questões muito comuns a todos os adolescentes como ele: o anseio e luta por independência e liberdade, o desejo de sair e se divertir, além das brigas e atritos constantes com os pais superprotetores. Marcas inconfundíveis de uma das fases mais difíceis e gostosas da vida. Contudo se engana quem pensa que os problemas do rapaz se resumem a isso.

Por ser deficiente visual Leo também sofre bullying de alguns de seus colegas que, além de fazerem piadas sobre a relativa dependência do garoto de que as pessoas lhe façam favores, também brincam de forma bastante cruel se aproveitando das limitações dele. Porém, as brincadeiras de mau gosto evoluem e se tornam insinuações acerca de sua sexualidade sobretudo quando a amizade de Gabriel e Leonardo vai se tornando mais estreita.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho como pode se ver é uma história singela e sem muitas pretensões, mas que reúne um grande número de temas universais (que podem acontecer em qualquer lugar, independente do cenário, não se prendendo ao local e à época em que a história é narrada) tornando o filme um pequeno ode[2] ao afeto, à juventude, às suas incertezas, aos seus dilemas e aos amores e descobertas que fazemos nessa fase. Isso me levou a pensar porque ele não daria um bom livro se análise psicológica dos personagens fosse mais profundamente trabalhada? O que sua trama o faz inferior a livros como Cidade de Papel, Will & Will, Apenas um Garoto ou Os 27 crushes de molly e tantos outros livros teens de autores conhecidos?

Acredito que não diferem muito, apesar de ter citado aqui livros que não li, mas que recordo ter visto uma crítica, uma resenha ou adaptação. Assim como esses livros, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho trata da adolescência sob muitos aspectos, muitos deles semelhantes. Contudo, a cegueira na adolescência é algo mais raro de se ver na literatura, como os jovens cegos lidam com suas limitações, como buscam alcançar sua independência, como amam, como são amados. Mais do que isso, a história envolve também a questão da homossexualidade, tema difícil e ainda polêmico seja para os videntes ou para os eficientes de qualquer natureza. É um leque enorme de questões que emergem no filme e tantas outras que poderiam emergir.

É certo que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não foi capaz de dar profundidade a todas as questões que abordou, e pela complexidade do tema, algumas coisas foram abordadas superficialmente. Mas me pergunto: não é assim também com as adaptações de livros, mesmo os mais complexos? Não são tratados superficialmente por conta do fator tempo de desenvolvimento, que no cinema é limitado a algumas poucas horas de vídeo? Então como ser exigente em um filme original? Desenvolvê-lo como livro resolveria certamente estas questões. Daqui em diante espero deixar claro porque Hoje Eu Quero Voltar Sozinho seria um bom livro teen.

Adolescência, deficiência e superproteção

Se fossemos dividir a trama de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho em partes, elas seriam duas. A primeira a giraria entorno do tema da independência dos jovens com deficiência visual e a superproteção de seus familiares, e a outra seria o despertar da relação do par romântico da narrativa que se mescla aos altos e baixos da amizade entre Leo e Giovana.

Leonardo além de ser portador de deficiência visual, é também filho único e por isso seus pais, mas sobretudo sua mãe, estão sempre cercando o rapaz de cuidados. Porém todo aquele amor e atenção acabam por inevitavelmente sufocar o adolescente.

Como todo sabem, a adolescência é uma fase onde o jovem está sempre em busca de independência e muitos também de autonomia. Poder tomar suas próprias decisões, não depender dos pais ir e vir sem necessidade de autorização ou de dar satisfações são desejos que, na juventude, todos nós ansiamos conquistar, e por vezes somos radicais no intento de consegui-lo.

Para alguns o processo de conquista da independência é tranquilo e até natural, mas para muitos outros é uma fase conturbada e de muitos atritos com os familiares que, ou por superproteção ou por bom-senso, insistem em contrariar o desejo extremado de liberdade de seus filhos. Mas, sem dúvida, esse desejo de liberdade é algo comum aos jovens e muito próprio desta fase, entretanto o é também para os deficientes visuais.

Com os adolescentes cegos a realidade não é diferente, apenas se soma as limitações impostas pela cegueira que afeta sensivelmente “aquisição de habilidades” de seu portador, assim como afirmam as pesquisadoras Jhenifer Geisa Burnagui, Mariana Peres e Gabriela Cordeiro em seu artigo, Autonomia e independência: percepção de adolescentes com deficiência visual e de seus cuidadores[3].

As pesquisadoras relatam que, nesta fase, além de ocorrer todo o conjunto de mudanças próprias da adolescência, a exemplo “das mudanças fisiológicas e do despertar da sexualidade”, há também “uma reconfiguração de identidade, uma nova construção de si, que tem a deficiência visual como fator constituinte”, e essa reconfiguração do eu não só envolveria as mudanças supracitadas como também, e principalmente, “as relações familiares e sociais”.

Leonardo e os pais durante mais uma cessão de discussão.
No filme, vemos como Leo atravessa todas estas questões e mudanças: o despertar de sua sexualidade que é seguido da afirmação de uma identidade homossexual, os conflitos familiares por independência e autonomia, e as relações escolares quase nunca fáceis e entrecruzadas pelo bullying e por um certo isolamento social imposto por aqueles que não são seus amigos pessoais, mas que também é autoimposto. No que trata dessa autoimposição que cito, ela aparece quando Leo manifesta que não tinha nenhuma intenção de ir a uma festa onde os colegas de turma estivessem presentes, sendo, só depois, convencido por Gabriel a ir.

Contudo, voltando a dimensão familiar Jhenifer, Mariana e Gabriela destacam ainda que no caso dos adolescentes deficientes visuais a conquista da independência e autonomia não é menos difícil e conflituosa do que no caso dos adolescentes videntes. Assim afirmam as pesquisadoras: “Cuidadores próximos de adolescentes com deficiência visual, geralmente pais e/ou avós, por vezes têm em si despertados sentimentos de superproteção e cuidado excessivo, podendo, dessa forma, interferir nos processos de obtenção de autonomia e independência”.

A superproteção familiar é uma questão central no filme. Os pais de Leo carregam consigo pensamentos limitantes de que os cegos não podem fazer tudo sozinhos, não podem ficar sozinhos sem supervisão ou companhia de um vidente, e, no caso de um adolescente, deve sempre dar satisfação de tudo o que fazem e sobretudo de para onde vão. E são todas estas coisas que eles projetam no filho e dele exigem. O pai manifesta uma atitude mais compreensiva, mas a mãe é inflexível.

Algo que me chamou muito a atenção é que apesar do discurso da mãe deixar claro que ela tem essa visão do cego como um limitado e incapaz de fazer sozinho certas coisas, ela tateia as palavras para não deixar esse pensamento explícito, não manifestá-lo em palavras claras e uníssonas. Ela teme por ele e por isso o limita mais do que sua própria deficiência. Essa superproteção sufoca Leonardo e incita nele o desejo de estar longe dos pais. Ir em busca de um intercâmbio e ir embora, fosse qual fosse o lugar, mas que fosse longe do monitoramento imposto pelos pais. O resultado da divergência de opiniões é claro: discussões e desentendimentos constantes.

Uma dialogo incrível do filme e que bem ilustra essa percepção da mãe ocorre quando após desaparecer sem dizer para onde ia Leo chega atrasado em casa e discute com os pais, ou melhor, o pai quase não diz nada.

(Leo) – Eu não posso dar um passo sem vocês me vigiarem?
(Mãe) – Você some por horas. Você quer que a gente fique tranquilo?
(Leo) – Mãe, pergunta pra qualquer pessoa da minha sala se o pai ia ficar nervoso por um atrasinho desses?
(Mãe) – Você sabe que é diferente!
(Leo) – Por que que tem que ser diferente, mãe?! Porque você não tenta fazer ser igual?!


Adolescência, bullying e consumo de bebidas alcoólicas

Antes de falarmos do segundo tema que subdivide a trama, uma outra dimensão da vida adolescente que é bastante abordada na história é a questão do bullying.

Cena de bullying no qual os colegas de sala cercam e brincam
com Leo sem que ele saiba quem está a sua volta.
Leonardo desde a primeira cena do filme até sua penúltima é constantemente alvo de brincadeiras maldosas e até humilhantes, inicialmente quanto a sua deficiência e a necessidade de que as pessoas lhe fizessem favores, a exemplo da amiga Giovana que o conduzia até o protão de casa todos os dias e o ajudava em outras tarefas e, que por conta disso era maldosamente chamada de “bengala humana”. Porém, com a chegada de Gabriel, as brincadeiras mudam de foco e começam a sugerir um relacionamento homossexual entre os novos amigos.

Como os demais temas, este também foi tratado com certa leveza uma vez que os reflexos mais profundos e que são comuns a quem sofre com o bullying não foram abordados pela trama. Leonardo se sente incomodado com as agressões – esse é o nome correto a ser dado – mas em momento algum parece se abater por conta delas.

Como todos sabem o bullying não é um fenômeno novo – presumo que seja tão velho quanto a humanidade –, mas que vem se tornando um grande problema, sobretudo nas escolas, porque mexe profundamente com o emocional da vítima e traz consequências psicológicas que são sentidas mesmo depois da idade adulta. Por denunciá-lo o filme revela mais uma faceta do universo estudantil, mas, sinceramente, perde por não aprofundá-lo. De qualquer forma, esse não era o foco principal da história e é posto mais como mais uma das dimensões que se entrecruzam na difícil realidade de adolescentes cegos e homossexuais.

Uma outra crítica que tenho a fazer do filme, um tanto moralista, confesso, é a respeito do consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes. Na minha opinião, o filme naturaliza o consumo ao representá-lo sem uma crítica ou denúncia subjacente.

Essa é uma realidade que conheço de perto, e meus alunos sabem que eu reprovo e não os apoio em seu consumo, quase sempre exagerado e em idade inadequada. O alcoolismo na adolescência é também uma realidade que não pode ser negada ou ignorada. Acredito que o objetivo do filme foi retratar fielmente a realidade dos adolescentes de hoje, mas o outro lado da moeda deveria ser apresentado também.

Hoje não só no Brasil, mas no mundo todo, a ingestão de álcool é a principal causa de morte de jovens de 15 a 24 anos de idade[4]. Além disso, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)[5] ainda aponta uma série de outras graves consequências pelo uso de álcool em menores de idade: lesões e consequências sociais, suicídio, violência sexual, prática de sexo inseguro e dependência, além dos efeitos nocivos ao cérebro, podendo interromper processos chaves do desenvolvimento desse órgão.

Essa é uma realidade que não foi representada no filme que tem faixa etária de 12 anos.

Adolescência, sentimento e sexualidade

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho nasceu como um curta-metragem chamado Eu não Quero Voltar Sozinho (assista no final da postagem) cuja boa recepção da crítica impulsionou a criação do longa.

A segunda versão da história de Leo, Giovana e Gabriel mantêm o mesmo elenco principal, mas amplia e ressignifica a narrativa.

O filme conserva alguns diálogos mudando seus contextos, também repete alguns acontecimentos porém, novamente, alterando contextos. Contudo a mudança mais sensível em relação a primeira versão é o deslocamento para uma proposta multifocal. No curta, a questão da deficiência visual de Leo é tratada só na superficialidade, o mesmo para o bullying, enquanto que o despertar do interesse de Leonardo por Gabriel se torna o foco principal da narrativa.

Diferentemente, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho busca trabalhar todas as frentes citadas no parágrafo anterior, e inclui a ela a discussão da independência do sujeito deficiente visual. Ainda assim, o despertar do amor homossexual entre Leo e Gabriel tem um grande peso na narrativa e, do meio para o final do longa, domina todo o cenário, ofuscando os temas que são mais destacados na primeira parte do enredo.

Algo, porém, que me chamou a atenção é a forma como acontece esse despertar no caso de Leonardo.

Leo e Gabriel de mãos dadas após mais um ataque de bullying sofrido pelos dois
O despertar da sexualidade, segundo Thais Gurgel[6], se dá em, pelo menos, três “frentes de descobrimento” e que se dão de forma paralela: “a da dinâmica das relações afetivas, a do prazer com o corpo e a da identificação com o gênero”. No filme todas essas frentes são destacadas em algum momento, porém, o maior foco foi na identificação com o gênero. É nessa frente onde se dá a descoberta da orientação sexual, que emerge do interesse e atração pelo sexo oposto, pelo mesmo sexo, ou por ambos.

Do meu ponto de vista, o despertar da sexualidade, lato sensu[7], quase sempre começa com o toque e ascende para a visão. O toque começa com o próprio corpo, com o corpo materno durante a amamentação, mas é com a visão que com mais intensidade expandimos e projetamos para o outro o nosso interesse. A imagem do que vemos no outro serve de canal para o sentir-se atraído e para o achar belo. Com Leo, porém, esse processo se dá por outros canais: a sensação do toque, dos cheiros que emanam do outro, e poderíamos incluir também as sensações que são provocadas pelos sons, o conforto que a voz do outro pode provocar.

Diferente dos deficientes visuais, os videntes nem sempre dão atenção aos outros sentidos e a imagem do outro prevalece sobre o que o olfato, a audição e o tato expressam. Por isso é tão comum se apaixonar levando em consideração só a aparência. Mas como enfatiza muito bem o pôster do filme: nem todo amor acontece à primeira vista, um trocadilho entre o ditado popular e a condição de cego do personagem principal, mas que serve de metáfora ao que discutimos.

Mas os sentidos nunca são os únicos fatores que provocam o interesse pelo outro, as atitudes, o comportamento, o humor e mesmo a inteligência e sensibilidade são elementos que pesam bastante. Com Leonardo outros fatores para além dos sentidos são envolvidos e levam-no a perceber-se interessado no colega de escola.

Leo e Gabriel andando de bicicleta com Leonardo guiando. 
Gabriel é o primeiro que estimula Leo a aventurar-se, fazer coisas “que um cego não faria”, como ir ao cinema, andar de bicicleta, fugir de casa para “ver” um eclipse, dançar em uma festa com os amigos. São essas atitudes que demonstram a Leo que, aos olhos de Gabriel, ele era capaz de tudo. O colega não o via como alguém limitado pela sua deficiência e nem via motivos para que isso o limitasse de fazer coisas que normalmente só os videntes fariam. Trata-se de um convite a conquistar uma independência, a viver como os demais, em suma, tudo o que Leonardo sonhava conquistar em sua relação com os pais: estímulo, confiança e independência. Diante de tudo isso, a questão da homossexualidade se torna só mais um elemento presente na história, sem, todavia, deixar de ser marcante na trama.

O filme trata todos os seus temas com bastante leveza e, por isso, deu um ar de maior naturalidade a relação entre Leonardo e Gabriel sem explorar a fundo a questão do preconceito que, no entanto, não está ausente e surge nas brincadeiras maldosas de alguns colegas. Porém, a forma como a questão da homossexualidade é abordada devolveu a ela um ar de algo natural, de uma forma de amor que é válida e deve ser respeitada. Acho que para demonstrar a naturalidade dessa forma de amor que o tema não foi tratado em suas barreiras e desafios mais comuns, e que são impostos por uma sociedade que ainda está aprendendo a aceitar o diferente.

Conclusão

Considero que a trama geral de Hoje eu quero voltar sozinho seria a base para um livro interessante, sobretudo por sua gama muito grande de temas interessantes e importantes, mas que infelizmente – muito mais por conta do tempo demasiadamente curto para desenvolvê-los – foram tratados um pouco superficialmente.

Ainda assim, considero relevante o filme por congregar uma multiplicidade de assuntos que precisam ser constantemente debatidos: a independência e autonomia da pessoa cega, o bullying, o despertar e a sexualidade propriamente dita do deficiente visual, a homossexualidade na adolescência. Temas delicados e difíceis que o filme trata com suavidade e cuidado, mas que na forma de livro teriam seus contornos mais bem delineados e desenvolvidos, assim como sua discussão mais aprofundada.

Considero que seria uma leitura prazerosa para todos os jovens videntes ou cegos, um livro que falaria de amor e de conquista, de respeito e liberdade.

E vocês? Também não acham que daria um livro interessante para esse público, principalmente se fosse escrito também em braile?

A película é uma produção dos estúdios Lacuna Filmes e entrou em cartaz no ano de 2014. Tem duração de 96 minutos. Foi vencedor de vários prêmios, os primeiros deles no Festival internacional de Cinema de Berlim: FIPRESCI Prize de Melhor Filme da mostra Panorama e o Teddy Award de Melhor Filme com temática LGBT.  Abaixo você pode conferir o trailer do filme e o curta que inspirou o filme: Eu não Quero Voltar Sozinho.


Trailer do filme



Eu não Quero Voltar Sozinho – Curta metragem completo




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[1] Que ou aquele que vê, que pode fazer uso da vista; visual (Houaiss, 2001).
[2]Poema lírico composto de estrofes de versos com medida igual, sempre de tom alegre e entusiástico (Houaiss, 2001).
[3] DO NASCIMENTO, Gabriela Cordeiro Corrêa; BURNAGUI, Jhenifer Geisa; DA ROSA, Mariana Peres. Autonomia e independência: percepção de adolescentes com deficiência visual e de seus cuidadores. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, v. 27, n. 1, p. 21-28, 2016.
[4] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-02/guia-alerta-sobre-consumo-precoce-de-bebidas-alcoolicas-entre-jovens
[5] http://www.cisa.org.br/artigo/167/uso-bebidas-alcoolicas-por-menores-idade.php
[6] https://novaescola.org.br/conteudo/433/o-despertar-da-sexualidade
[7]Lato sensu é uma expressão em Latim que significa “em sentido amplo”. É utilizada em outros idiomas e áreas como DireitoLinguísticaSemiótica e outras, para referir que determinada interpretação deve ser compreendida no seu sentido lato, mais abrangente. (Disponível em: https://www.significados.com.br/lato-sensu/)
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